Arquivo da tag: Seidman

Resumo do texto “Teoria Queer: uma política pós-identitária para a educação”, de Guacira Lopes Louro

Nos últimos vinte anos, a sexualidade tem recebido grande atenção de cientistas, religiosos, antropólogos, educadores e estudiosos em geral, sendo, desde então, entendida das mais diferentes maneiras. Segundo Lopes Louro, Foucault certamente diria que, atualmente, proliferam cada vez mais os discursos sobre o sexo e que as sociedades continuam produzindo, avidamente, um “saber sobre o prazer” ao mesmo tempo que experimentam o “prazer de saber”.

Hoje, as “minorias” sexuais estão mais visíveis e, consequentemente, a sua luta com os conservadores está mais explícita. Porém, parece impróprio o termo “minorias”. Como afirma a revista La Gandhi Argentina, em uma edição de 1998, “as minorias nunca poderiam se traduzir como uma inferioridade numérica mas sim como maiorias silenciosas que, ao se politizar, convertem o gueto em território e o estigma em orgulho – gay, étnico, de gênero”. Lopes Louro defende que a visibilidade possui dois lados: uma crescente aceitação da pluralidade sexual, mas, também, o aumento de ataques dos tradicionais, que realizam desde discursos em prol dos “valores tradicionais da família” até agressões extremas. As fronteiras vêm sendo extravasadas e, com isso, novas questões – sem respostas certeiras – estão surgindo.

Construindo uma política de identidade

Antes, relações sexuais entre pessoas do mesmo século eram consideradas atividades pecaminosas. Hoje, esta prática define um tipo de sujeito marcado e reconhecido, categorizado como um “desvio da norma”. Nadando contra a corrente, algumas pessoas contestam a sexualidade legitimada e se arriscam a viver fora dos limites, expondo-se, muitas vezes, à violência e à exclusão social. Os diferentes campos (ciência, justiça, religiões, conservadores etc.) passam a atribuir a este grupo sentidos distintos. Desta forma, a homossexualidade transforma-se em questão socialmente relevante, sobretudo o seu significado moral: uns assinalam a inferioridade ou anormalidade do homossexual e outros lutam por sua normalidade e naturalidade, mas todos parecem de acordo de que se trata de um ‘tipo’ de humano distinto.

Até o início dos anos de 1970, esses são os discursos mais expressivos. A organizações de grupos homossexuais ainda é fraca e, muitas vezes, clandestina. Aos poucos, principalmente nos Estados Unidos e Inglaterra, a questão da homossexualidade começa a surgir em revistas, artigos isolados, teatro etc. No Brasil, começa a aparecer nas artes, publicidade, teatro. Alguns artistas passam a apostar na ambiguidade sexual, pertubando a sociedade. O cantor Ney Matogrosso e o grupo Dzi Croquettes misturam referências femininas e masculinas em suas performances e, segundo João Silvério Trevisan, acabam por desempenhar um papel importante no debate sobre política sexual no Brasil. A partir de 1975, emerge o Movimento de Libertação Homossexual no Brasil, do qual participaram, dentre outros, intelectuais exilados durante a ditadura militar e que traziam, de suas experiências no exterior, inquietações políticas feministas, sexuais, ecológicas e raciais.

Nos grandes centros, a homossexualidade deixa de ser vista como condição uniforme e passa a ser vista como dimensão de classe. A ação política torna-se mais visível e assume caráter libertador. As suas críticas voltam-se contra a heterossexualização da sociedade. Para alguns, o alvo é a integração social e, para outros, sobretudo para as feministas lésbicas, o caminho é a construção de uma comunidade própria. Intelectuais de diversas instituições internacionais mostram sua afinidade com o movimento e grupos militantes. Pouco a pouco, constrói-se a ideia de uma comunidade homossexual. No final dos anos 1970, a política gay e lésbica abandonava o modelo de libertação e se encaminhava para um modelo “étnico”; um grupo que buscava alcançar igualdade de direitos no interior da ordem social existente.

A afirmação da identidade homossexual implicava disputas quanto às formas de representá-la. Imagens homofóbicas e estereótipos exibidos na mídia passam a ser contrapostos por representações “positivas”. Surge um dilema fundamental para a comunidade: “assumir-se” ou “permanecer enrustido”. Segundo uma frase de Spargo (“to come home, of course, you first had to come out”), para fazer parte da sociedade homossexual, é indispensável tornar pública sua condição.

No final dos anos 1970, no Brasil, surgem jornais ligados aos grupos organizados e reuniões de discussão e de ativismo. Em conexão com o movimento político, muitas personalidades do campo artístico e cultural passam a se assumir publicamente. Sobretudo a partir dos anos 1980, a temática passa a constituir, também, uma questão acadêmica, discutida em algumas universidades e grupos de pesquisas.

O discurso sobre uma representação “positiva” da homossexualidade assume um efeito regulador e disciplinador. Nesse discurso, ser gay ou lésbica diz respeito apenas à preferência de ter relações sexuais com pessoas do mesmo sexo. Contudo, foi questionado por Spargo, que defendeu que, com esse modelo, os bissexuais teriam uma identidade menos segura e grupos que definem sua sexualidade mais como atividades e prazeres do que através de preferências de gênero seriam excluídos.

A política praticada nos anos 1970 e 1980, unificadora e assimilacionista, passou a ser questionada internamente. Grupos de negros, latinos e jovens, sobretudo, passaram a questionar que as campanhas políticas eram norteadas por “valores brancos e de classe média”, sem abordar temas como relacionamento comprometido e monogâmico. Para algumas lésbicas, o movimento privilegiava os homens, tornando as suas reivindicações secundárias face às reivindicações dos homens gays. Bissexuais, transsexuais e sadomasoquistas continuavam marginalizados. A concepcão da identidade homossexual que estava sendo construída era a questão mais debatida.

Nos anos 1980, o surgimento da AIDS trouxe novos elementos ao jogo. O “câncer gay” resgatou a homofobia da sociedade e intensificou a discriminação, a intolerância e o desrespeito. Por um outro lado, surgiram redes de solidariedade, baseadas além da identidade. Os discursos, agora, concentram-se mais nas práticas sexuais, como o sexo seguro. Nesse contexto, aconteceu o que João Silvério Trevisan chama de “efeito colateral da epidemia sexualizada”: a deflagração de uma “epidemia de informação”. Para ele, a AIDS deixou evidente à sociedade a existência dos homossexuais.

No Brasil, os grupos ativistas, de gays e lésbicas, aumentaram. As possibilidades dividem-se em integrar partidos políticos ou continuar a luta de forma independente. Em um contexto global, os grupos multiplicam-se: alguns seguem ndo por reconhecimento e inclusão; outros, seguem desafiando as fronteiras de gênero e a dicotomia masculino/feminino, homem/mulher, heterossexual/homossexual.

A agenda teórica agora questionava as próprias categorias. A política homossexual estava em crise. Surgiram formulações teóricas pós-identitárias.

Uma teoria e uma política pós-identitária

Queer pode ser “estranho”, “talvez ridículo”, “excêntrico”, “raro”, “extraordinário”. É também uma forma pejorativa de se referir a homens e mulheres homossexuais, um insulto dom tom de deboche. Este termo é resgatado por uma vertente dos movimentos homossexuais e utilizado para caracterizar sua perspectiva de oposição e de contestação: para eles, queer é colocar-se contra a normalização, venha ela de onde vier. Nesta perspectiva, tem como alvo imediato a heteronormatividade da sociedade, mas também a normalização proposta pelo movimento homossexual dominante.

A política queer está ligada à produção de um grupo de intelectuais dos anos 90, que usa este termo para descrever suas perspectivas teóricas. Segundo Seidman, os teóricos queer são “favoráveis a uma estratégia descentradora ou desconstrutiva que escapa das proposições sociais e políticas programáticas positivas; imaginam o social como um texto a ser interpretado e criticado com o propósito de contestar os conhecimentos e as hierarquias sociais dominantes”.

A teoria queer pode ser vinculada ao pensamento ocidental contemporâneo que problematizou, ao longo do século XX, noções clássicas de sujeito, de identidade, de agência, de identificação. A construção discursiva das sexualidades, exposta por Foucault, é fundamental para a teoria queer, assim como a operação de desconstrução proposta por Jacques Derrida. Derrida defende que a lógica ocidental opera segundo binarismos, que elege algo como uma “ideia principal” e, a partir daí, determina um outro subordinado (superior x inferior). Segundo ele, esta lógica apenas poderia ser abalada a partir de um processo de desconstrução dos “pares”.

Os teóricos queer, a exemplo de Judith Butler, uma das mais destacadas teóricas, reafirma o caráter discursivo da sexualidade e produz novas concepções da ideia de sexo, sexualidade e gênero. Para ela, sociedades constroem normas que regulam o sexo dos sujeitos e essas normas regulatórias precisam ser constantemente repetidas e reiteradas para que tal materialização se concretize. Desta forma, as normas regulatórias do sexo têm caráter performativo e produz as normas dos gêneros sob a ótica heterossexual, produzindo corpos e sujeitos, fazendo com o que o sujeito não decida sobre o sexo que vai assumir.

Essas normas regulatórias, porém, também dão espaço para a produção de corpos que não se ajustam a elas, sujeitos socialmente indispensáveis, pois fornecem o “exterior” para os corpos que “materializam a norma”. Novamente: a teoria queer, não só Butler, volta sua crítica para a dicotomia heterossexual/homossexual, pois, para eles, isto preside os discursos homofóbicos e está presente, também, nos discursos favoráveis aos homossexuais, nunca escapando de uma referência à heterossexualidade como norma. Segundo os teóricos da teoria queer, é necessário empreender uma mudança que rompa com a lógica binária e seus efeitos (hierarquia, classificação, dominação e exclusão) e mudar o foco para a cultura, para as “estruturas linguísticas ou discursivas” e para seus “contextos institucionais”.

A teoria queer, segundo Seidman, “constitui-se menos numa questão de explicar a repressão ou a expressão de uma minoria homossexual do que numa análise da figura hetero/homossexual”.

Uma pedagogia e um currículo queer

A teoria queer permite pensar a ambigüidade, a multiplicidade e a fluidez das identidades sexuais e de gênero mas, além disso, também sugere novas formas de pensar a cultura, o conhecimento, o poder e a educação. Uma pedagogia queer não seria como programas multiculturais nos quais as as diferenças (de gênero, sexuais ou étnicas) são toleradas ou apreciadas como curiosidades. Uma pedagogia e um currículo queer estariam voltados para a produção das diferenças, questionando as relações do eu com o outro. No contexto em que a diferença deixaria de estar ausente, a polarização heterossexual/homossexual seria questionada, assim como a superioridade da heterossexualidade. Para a pedagogia queer, não bastaria denuniciar o submetimento dos homossexuais, mas desconstruir o processo pelo qual alguns sujeitos se tornam normalizados e outros marginalizados

A reviravolta provocada pela teoria queer transborda o terreno da sexualidade, perturba as formas convencionais de conhecimento. A pedagogia queer sugere o questionamento, a desnaturalização e a incerteza como estratégias férteis e criativas para pensar qualquer dimensão da existência. A dúvida seria algo estimulante.

Faltam, porém, para esta pedagogia, objetivos definidos, indicações precisas e sugestões adequadas para conduzir os estudantes. A teoria queer, embora perturbadora, é fascinante e faz pensar.