Resumo do texto Teoria Queer – Uma política pós-identitária para a educação

Guacira Lopes Louro começa seu texto Teoria Queer – Uma política pós-identitária para a educação, publicado na edição do segundo semestre de 2001 da revista Estudos Feministas e no seu livro Um corpo estranho: ensaios sobre sexualidade e teoria queer, observando como é notável o crescimento do interesse na temática da sexualidade que os últimos séculos têm observado. Como cada vez mais setores da sociedade a escrutinam com olhar cuidadoso, reivindicando sobre ela éticas e proliferando discursos a seu respeito. Lopes Louro argumenta que a sexualidade tem se tornado efetivamente uma “questão”, à medida que a religião, a antropologia, a filosofia, a ciência, a psiquiatria e a educação tentam compreendê-la, explicá-la, regulá-la, saneá-la, educá-la, enfim, normatizá-la.

Ela, a seguir, chama atenção para o fato de que as minorias – étnicas, de gênero, de classe etc. – vêm ganhando crescente visibilidade pública, o que, se por um lado aumenta a aceitação social de tais grupos, por outro, faz retomarem fôlego as reações conservadoras, das campanhas pelos valores tradicionais à violência física, e chama atenção, citando a revista La Gandhi Argentina, para o fato de que o termo “minorias” não se refere necessariamente a inferioridades numéricas, mas muitas vezes a maiorias silenciadas que, uma vez politizadas, positivam o estima que lhes é imposto (p. 542).

A partir daí, Lopes Louro traz enfim a questão-chave da teoria queer, o problema de não apenas reconhecer que as posições de gênero e sexuais se proliferaram, mas entender que existem sujeitos habitando essas fronteiras, e que elas são constantemente atravessadas. Tendo isso em mente, e sendo uma pesquisadora da área de educação, ela se pergunta o que os educadores podem fazer face à inaptidão do cânone para lidar com esses sujeitos sociais.

A autora começa a explicar a noção que Michel Foucault apresenta na sua História da sexualidade de que, se até o século XIX a prática sexual entre dois homens é entendida como sodomia, um tipo de pecado religioso e moral, a partir daí ela define um novo tipo de sujeito. Cria uma nova ontologia. Inventa o homossexual. A partir da sua invenção até surgirem grupos de homossexuais que estivessem de fato construindo uma política identitária, demoraria algum tempo.

Os movimentos homossexuais organizados começam tímidos e marcados pela clandestinidade, até que alguns espaços esparsos de visibilidade começam a surgir, como as artes e certos jornais ou revistas. No Brasil, figuras como as de Ney Matogrosso e a das Dzi Croquetes têm suas performances marcadas pela ambigüidade, pelo embaralhamento de signos ligados ao masculino e ao feminino, e é só mais tarde que o Movimento de Libertação Homossexual surge, com forte presença de antigos exilados da ditadura, que trazem de volta ao Brasil o que mais novo há no cenário internacional em termos de movimentos sociais.

Nos grandes centros, aos poucos a condição homossexual vai sendo vista como atravessada por gênero, classe, raça e outras identidades, e surgem propostas tanto de integração social como (especialmente entre as feministas lésbicas) de radical rompimento com a sociedade burguesa e heterossexista. Aos poucos, forma-se uma comunidade e um movimento homossexual, cujas discussões são marcadas por questões como o coming out (saída do armário) e as representações de homossexuais nos meios de comunicação de massa. Começa a surgir uma identidade gay.

A construção de bases para a emergência de uma identidade baseada nas preferências sexuais, contudo, define os contornos do que é ser homossexual através da escolha do objeto de desejo, tornando a-histórica a homossexualidade e apagando a origem do seu surgimento no século XIX, minando a possibilidade da emergência de sujeitos cuja identidade pudesse ser mais ligada às práticas do que aos objetos de desejo, como os sadomasoquistas, e empurrando os bissexuais para um limbo de identidades menos bem-resolvidas (aqui, Guacira compara a posição de exclusão dos bissexuais no que tange a sexualidade à exclusão das transexuais no que tange ao gênero concebido de modo essencialista).

A partir dos anos 70, homossexual não é mais uma categoria capaz de perturbar o status quo como anteriormente, sobretudo devido à política assimilacionista de tentativa de integração social praticada pelo movimento hegemônico, ainda que tensões internas relativas a origem, raça e geração estivessem em emergência. Vozes dissonantes no movimento criticavam ideais como o do relacionamento monogâmico e a marginalização pelos próprios gays de grupos desprivilegiados com relação a gênero, raça ou classe. A AIDS só veio complicar ainda mais essa situação a partir dos anos 80, renovando a ação homofóbica e, ao mesmo tempo, em contracorrente, criando redes de solidariedade que se formavam mais em torno dos infectados (a partir de um momento também heterossexuais) do que da identidade gay e pondo a ênfase sobre aspectos da prática sexuais (como o sexo seguro) que não diziam respeito exclusivamente a uma identidade.

A partir daí, os homossexuais ganharam visibilidade no Brasil, a educação sexual entrou nas diretrizes curriculares do ministério da educação e o movimento começou a mostrar cada vez mais rachaduras. Havia ainda um movimento hegemônico assimilacionista que confiava nos fáceis binarismos de gênero e sexualidade, mas começaram a emergir movimentos de sujeitos que os desafiavam, fosse questionando a fixidez das fronteiras, fosse vivendo justamente nelas.

A partir de então, Lopes Louro começa a falar em uma teoria e uma política pós-identitária. Explica que queer pode ser traduzido por estranho, ridículo, excêntrico, raro. Inicialmente um insulto, o termo vem sendo positivado e apropriado por grupos que se insurgem contra as normatizações da sociedade, sobretudo no que diz respeito à heteronormatividade compulsória, reverberada até mesmo no discurso do movimento gay hegemônico. Louro afirma que a política queer se articula com com a produção de um grupo de intelectuais ligados ao pós-estruturalismo e ao desconstrucionismo, não obstante suas grandes diferenças internas, que a partir dos ano 90 usa esse termo para identificar seu trabalho intelectual e seu posicionamento político.

Louro destaca então a importância das teorizações de Freud (noção de inconsciente que abala a ideia de cartesiana de sujeito), Lacan (que aponta que a noção de “eu” surge através da imposição do olhar do outro), Althusser (ideia de sujeitos interpelados e capturados pela ideologia), Derrida (desconstrução dos binarismos) e Foucault (construção discursiva das sexualidades) para abalar as noções clássicas de sujeito e identidade, e também a relevância desses trabalhos, sobretudo o de Foucault, para o surgimento da teoria queer.

O texto então segue mencionando teorizações de pensadores propriamente queer, como Judith Butler. Louro evidencia a teorização de Butler de que os gêneros e sexualidades são conformados através da repetição de normas regulatórias que precisam ser constantemente reiteradas para que tal conformação se realize. Tais normas são, para Butler, performativas, no sentido de que inauguram aquilo que pretendem regular. Criam aquilo que nomeiam. Butler chama atenção, contudo, para o fato de que ao mesmo tempo em que a enunciação de tais normas pretende criar conformação, possibilita a fuga, uma vez que os corpos nunca se conformam completamente a elas. Elas criam o que é normativo e, o fazendo, abrem espaço para a existência do que não é, aquilo que Butler chama de abjeto.

Louro chama atenção para a crítica que Butler faz ao binarismo heterossexual/homossexual e às políticas de identidade, e fala em seguida da sugestão de uma política pós-identitária, cujo alvo não seria a vida ou destino de homens e mulheres homossexuais, mas a crítica à oposição binária homossexual/heterossexual.

Sendo a área de atuação de Guacira Lopes Louro a pedagogia, ela não deixa de falar sobre uma pedagogia e um currículo queer. Ela afirma que uma pedagogia queer não seria aquela que simplesmente trataria das temáticas de que trata a teoria queer propriamente, mas aquela que abraça a sua própria proposta metodológica de duvidar das certezas, pensar o impensável, conceber a diferença como constituinte do sujeito, e não como mera curiosidade exótica. Enfim, trazer no seu bojo uma epistemologia perversa, subversiva, impertinente, irreverente, profana, desrespeitosa (p. 550).


Resumo do texto “Teoria Queer: uma política pós-identitária para a educação”, de Guacira Lopes Louro

Nos últimos vinte anos, a sexualidade tem recebido grande atenção de cientistas, religiosos, antropólogos, educadores e estudiosos em geral, sendo, desde então, entendida das mais diferentes maneiras. Segundo Lopes Louro, Foucault certamente diria que, atualmente, proliferam cada vez mais os discursos sobre o sexo e que as sociedades continuam produzindo, avidamente, um “saber sobre o prazer” ao mesmo tempo que experimentam o “prazer de saber”.

Hoje, as “minorias” sexuais estão mais visíveis e, consequentemente, a sua luta com os conservadores está mais explícita. Porém, parece impróprio o termo “minorias”. Como afirma a revista La Gandhi Argentina, em uma edição de 1998, “as minorias nunca poderiam se traduzir como uma inferioridade numérica mas sim como maiorias silenciosas que, ao se politizar, convertem o gueto em território e o estigma em orgulho – gay, étnico, de gênero”. Lopes Louro defende que a visibilidade possui dois lados: uma crescente aceitação da pluralidade sexual, mas, também, o aumento de ataques dos tradicionais, que realizam desde discursos em prol dos “valores tradicionais da família” até agressões extremas. As fronteiras vêm sendo extravasadas e, com isso, novas questões – sem respostas certeiras – estão surgindo.

Construindo uma política de identidade

Antes, relações sexuais entre pessoas do mesmo século eram consideradas atividades pecaminosas. Hoje, esta prática define um tipo de sujeito marcado e reconhecido, categorizado como um “desvio da norma”. Nadando contra a corrente, algumas pessoas contestam a sexualidade legitimada e se arriscam a viver fora dos limites, expondo-se, muitas vezes, à violência e à exclusão social. Os diferentes campos (ciência, justiça, religiões, conservadores etc.) passam a atribuir a este grupo sentidos distintos. Desta forma, a homossexualidade transforma-se em questão socialmente relevante, sobretudo o seu significado moral: uns assinalam a inferioridade ou anormalidade do homossexual e outros lutam por sua normalidade e naturalidade, mas todos parecem de acordo de que se trata de um ‘tipo’ de humano distinto.

Até o início dos anos de 1970, esses são os discursos mais expressivos. A organizações de grupos homossexuais ainda é fraca e, muitas vezes, clandestina. Aos poucos, principalmente nos Estados Unidos e Inglaterra, a questão da homossexualidade começa a surgir em revistas, artigos isolados, teatro etc. No Brasil, começa a aparecer nas artes, publicidade, teatro. Alguns artistas passam a apostar na ambiguidade sexual, pertubando a sociedade. O cantor Ney Matogrosso e o grupo Dzi Croquettes misturam referências femininas e masculinas em suas performances e, segundo João Silvério Trevisan, acabam por desempenhar um papel importante no debate sobre política sexual no Brasil. A partir de 1975, emerge o Movimento de Libertação Homossexual no Brasil, do qual participaram, dentre outros, intelectuais exilados durante a ditadura militar e que traziam, de suas experiências no exterior, inquietações políticas feministas, sexuais, ecológicas e raciais.

Nos grandes centros, a homossexualidade deixa de ser vista como condição uniforme e passa a ser vista como dimensão de classe. A ação política torna-se mais visível e assume caráter libertador. As suas críticas voltam-se contra a heterossexualização da sociedade. Para alguns, o alvo é a integração social e, para outros, sobretudo para as feministas lésbicas, o caminho é a construção de uma comunidade própria. Intelectuais de diversas instituições internacionais mostram sua afinidade com o movimento e grupos militantes. Pouco a pouco, constrói-se a ideia de uma comunidade homossexual. No final dos anos 1970, a política gay e lésbica abandonava o modelo de libertação e se encaminhava para um modelo “étnico”; um grupo que buscava alcançar igualdade de direitos no interior da ordem social existente.

A afirmação da identidade homossexual implicava disputas quanto às formas de representá-la. Imagens homofóbicas e estereótipos exibidos na mídia passam a ser contrapostos por representações “positivas”. Surge um dilema fundamental para a comunidade: “assumir-se” ou “permanecer enrustido”. Segundo uma frase de Spargo (“to come home, of course, you first had to come out”), para fazer parte da sociedade homossexual, é indispensável tornar pública sua condição.

No final dos anos 1970, no Brasil, surgem jornais ligados aos grupos organizados e reuniões de discussão e de ativismo. Em conexão com o movimento político, muitas personalidades do campo artístico e cultural passam a se assumir publicamente. Sobretudo a partir dos anos 1980, a temática passa a constituir, também, uma questão acadêmica, discutida em algumas universidades e grupos de pesquisas.

O discurso sobre uma representação “positiva” da homossexualidade assume um efeito regulador e disciplinador. Nesse discurso, ser gay ou lésbica diz respeito apenas à preferência de ter relações sexuais com pessoas do mesmo sexo. Contudo, foi questionado por Spargo, que defendeu que, com esse modelo, os bissexuais teriam uma identidade menos segura e grupos que definem sua sexualidade mais como atividades e prazeres do que através de preferências de gênero seriam excluídos.

A política praticada nos anos 1970 e 1980, unificadora e assimilacionista, passou a ser questionada internamente. Grupos de negros, latinos e jovens, sobretudo, passaram a questionar que as campanhas políticas eram norteadas por “valores brancos e de classe média”, sem abordar temas como relacionamento comprometido e monogâmico. Para algumas lésbicas, o movimento privilegiava os homens, tornando as suas reivindicações secundárias face às reivindicações dos homens gays. Bissexuais, transsexuais e sadomasoquistas continuavam marginalizados. A concepcão da identidade homossexual que estava sendo construída era a questão mais debatida.

Nos anos 1980, o surgimento da AIDS trouxe novos elementos ao jogo. O “câncer gay” resgatou a homofobia da sociedade e intensificou a discriminação, a intolerância e o desrespeito. Por um outro lado, surgiram redes de solidariedade, baseadas além da identidade. Os discursos, agora, concentram-se mais nas práticas sexuais, como o sexo seguro. Nesse contexto, aconteceu o que João Silvério Trevisan chama de “efeito colateral da epidemia sexualizada”: a deflagração de uma “epidemia de informação”. Para ele, a AIDS deixou evidente à sociedade a existência dos homossexuais.

No Brasil, os grupos ativistas, de gays e lésbicas, aumentaram. As possibilidades dividem-se em integrar partidos políticos ou continuar a luta de forma independente. Em um contexto global, os grupos multiplicam-se: alguns seguem ndo por reconhecimento e inclusão; outros, seguem desafiando as fronteiras de gênero e a dicotomia masculino/feminino, homem/mulher, heterossexual/homossexual.

A agenda teórica agora questionava as próprias categorias. A política homossexual estava em crise. Surgiram formulações teóricas pós-identitárias.

Uma teoria e uma política pós-identitária

Queer pode ser “estranho”, “talvez ridículo”, “excêntrico”, “raro”, “extraordinário”. É também uma forma pejorativa de se referir a homens e mulheres homossexuais, um insulto dom tom de deboche. Este termo é resgatado por uma vertente dos movimentos homossexuais e utilizado para caracterizar sua perspectiva de oposição e de contestação: para eles, queer é colocar-se contra a normalização, venha ela de onde vier. Nesta perspectiva, tem como alvo imediato a heteronormatividade da sociedade, mas também a normalização proposta pelo movimento homossexual dominante.

A política queer está ligada à produção de um grupo de intelectuais dos anos 90, que usa este termo para descrever suas perspectivas teóricas. Segundo Seidman, os teóricos queer são “favoráveis a uma estratégia descentradora ou desconstrutiva que escapa das proposições sociais e políticas programáticas positivas; imaginam o social como um texto a ser interpretado e criticado com o propósito de contestar os conhecimentos e as hierarquias sociais dominantes”.

A teoria queer pode ser vinculada ao pensamento ocidental contemporâneo que problematizou, ao longo do século XX, noções clássicas de sujeito, de identidade, de agência, de identificação. A construção discursiva das sexualidades, exposta por Foucault, é fundamental para a teoria queer, assim como a operação de desconstrução proposta por Jacques Derrida. Derrida defende que a lógica ocidental opera segundo binarismos, que elege algo como uma “ideia principal” e, a partir daí, determina um outro subordinado (superior x inferior). Segundo ele, esta lógica apenas poderia ser abalada a partir de um processo de desconstrução dos “pares”.

Os teóricos queer, a exemplo de Judith Butler, uma das mais destacadas teóricas, reafirma o caráter discursivo da sexualidade e produz novas concepções da ideia de sexo, sexualidade e gênero. Para ela, sociedades constroem normas que regulam o sexo dos sujeitos e essas normas regulatórias precisam ser constantemente repetidas e reiteradas para que tal materialização se concretize. Desta forma, as normas regulatórias do sexo têm caráter performativo e produz as normas dos gêneros sob a ótica heterossexual, produzindo corpos e sujeitos, fazendo com o que o sujeito não decida sobre o sexo que vai assumir.

Essas normas regulatórias, porém, também dão espaço para a produção de corpos que não se ajustam a elas, sujeitos socialmente indispensáveis, pois fornecem o “exterior” para os corpos que “materializam a norma”. Novamente: a teoria queer, não só Butler, volta sua crítica para a dicotomia heterossexual/homossexual, pois, para eles, isto preside os discursos homofóbicos e está presente, também, nos discursos favoráveis aos homossexuais, nunca escapando de uma referência à heterossexualidade como norma. Segundo os teóricos da teoria queer, é necessário empreender uma mudança que rompa com a lógica binária e seus efeitos (hierarquia, classificação, dominação e exclusão) e mudar o foco para a cultura, para as “estruturas linguísticas ou discursivas” e para seus “contextos institucionais”.

A teoria queer, segundo Seidman, “constitui-se menos numa questão de explicar a repressão ou a expressão de uma minoria homossexual do que numa análise da figura hetero/homossexual”.

Uma pedagogia e um currículo queer

A teoria queer permite pensar a ambigüidade, a multiplicidade e a fluidez das identidades sexuais e de gênero mas, além disso, também sugere novas formas de pensar a cultura, o conhecimento, o poder e a educação. Uma pedagogia queer não seria como programas multiculturais nos quais as as diferenças (de gênero, sexuais ou étnicas) são toleradas ou apreciadas como curiosidades. Uma pedagogia e um currículo queer estariam voltados para a produção das diferenças, questionando as relações do eu com o outro. No contexto em que a diferença deixaria de estar ausente, a polarização heterossexual/homossexual seria questionada, assim como a superioridade da heterossexualidade. Para a pedagogia queer, não bastaria denuniciar o submetimento dos homossexuais, mas desconstruir o processo pelo qual alguns sujeitos se tornam normalizados e outros marginalizados

A reviravolta provocada pela teoria queer transborda o terreno da sexualidade, perturba as formas convencionais de conhecimento. A pedagogia queer sugere o questionamento, a desnaturalização e a incerteza como estratégias férteis e criativas para pensar qualquer dimensão da existência. A dúvida seria algo estimulante.

Faltam, porém, para esta pedagogia, objetivos definidos, indicações precisas e sugestões adequadas para conduzir os estudantes. A teoria queer, embora perturbadora, é fascinante e faz pensar.


Ciberfeminismo: velhas-novas práticas do feminismo em redes eletrônicas

No contexto da discussão sobre as identidades, e em particular no campo da ação dos novos movimentos sociais, o campo comunicacional emerge como espaço de luta política, decisivo e não apenas complementar de outras instâncias em que se encerra a dinâmica histórica. As novas tecnologias de comunicação possibilitam um redimensionamento dos modos de organização de inúmeros movimentos sociais como, por exemplo, o feminismo, que nesse contexto é atualizado por uma nova prática denominada Ciberfeminismo. O Ciberfeminismo desde seu início atualiza suas relações históricas com outros feminismos. A partir dessa premissa, o movimento mapeia as possibilidades de novos discursos feministas em redes de comunicação, interrogando como esse movimento se dá, e mais especificamente, como o uso das novas tecnologias de comunicação constrói essas novas histórias feministas.

O Ciberfeminismo teve origem em inúmeras redes eletrônicas, anteriores à World Wide Web (WWW), como por exemplo, as BBS e Intranets universitárias da Austrália e Alemanha. Outro fator responsável pela origem do Ciberfeminismo é a publicação do Manifesto Ciborgue: ciência, tecnologia e feminismo-socialista no final do século XX em 1984, escrito pela biológa Donna Haraway. Donna Haraway propõe um rompimento com o marxismo, o feminismo radical e outros movimentos sociais que fracassaram ao operar com categorias como classe, raça e gênero. Em relação ao movimento feminista, a crítica de Haraway diz respeito ao modo como ele vem operando com a categoria “mulher” de uma forma naturalizada. Sendo assim, seria necessário romper com essa política da identidade e substituí-la pelas diferenças e por uma coalizão política baseada na afinidade e não numa identificação concebida como “natural”. O ciborgue seria, assim, o modelo, o mito fundante dessa nova política de identificação construída a partir da afinidade, longe da lógica da apropriação de uma única identidade. A partir disso iniciam-se as discussões e análises do processo de construção desses novos modos de discurso em redes eletrônicas e suas relações com os movimentos de identidade.

No caso Ciberfeminismo, uma das teses dessa vertente é que o entendimento do espaço da mulher deve ser também entendido no contexto das novas tecnologias, mais especificamente o da Internet. Uma dos problemas nesse processo, proposto pelas australianas Hawthorne e Klein (1999)¹ e pela americana Faith Wilding (1997)², é a de que o Ciberfeminismo ao tentar se alinhar radicalmente às teorias de Haraway, na tentativa de um rompimento com o movimento feminista anterior, acabou por obliterar sua relação com o passado político do movimento e sua relação com os diferentes contextos culturais femininos. Mas ainda que o Ciberfeminismo não tenha as mesmas características políticas de seus antecessores, suas reverberações podem ser percebidas em produções artísticas e na ação ativista de inúmeros grupos e artistas.

São pioneiras as atuações de coletivos artísticos e ativistas como as Old Boys Network (1997-2001), e algumas artistas como Coco Fusco(2001-2003) e Heide Kumao(2002-2008), que pelos seus trabalhos manifestam um discurso alinhado as teorias ciberfeministas dos anos 1990, e que foram influenciadas, indiretamente ou diretamente, pelo movimento. A ação dessas artistas, bem como suas experiências, deve ser tomada como parte do movimento ciberfeminista, que ocorre em nível global e desterritorializado devido ao uso das novas tecnologias de comunicação em rede. No Brasil, também contamos com o desenvolvimento, cada vez mais crescente, de trabalhos que problematizam a questão da mulher e da tecnologia como, por exemplo, os centros de fomento à relação entre gênero e tecnologia como o CEMINA, bem como a série de trabalhos da artista Helga Stein, Andro-Hertz (2004), e do BR.ADA que recentemente surge como uma tentativa de mapear as relações de gênero , tecnologia e arte dentro do panorama latino-americano.

A co-habitação entre as tecnologias e os movimentos sociais é um fato que marca a contemporaneidade, como por exemplo, o hacktivismo, as rádios comunitárias, dentre outras manifestações. De fato, a tecnologia é apenas uma perspectiva para se olhar para os movimentos sociais e, ao fazermos o uso desta lente, devemos pensar em que medida as novas tecnologias redimensionam esses movimentos. No caso do feminismo, e mais especificamente do Ciberfeminismo, é preciso termos em conta as diferentes camadas e diferentes temporalidades que as tecnologias utilizadas por esses movimentos perpassam.

Apesar de existirem inúmeras definições para o Ciberfeminismo, o entendemos como uma prática feminista em rede, que tem por intuito, tanto politicamente, quanto esteticamente, a construção de novas ordens e desmontagem de velhos mitos da sociedade através do uso da tecnologia (MARTÍNEZ COLLADO e NAVARRETE, 2006)³. A priori, o Ciberfeminismo não é uno, desde o seu surgimento ele se apresentou de diversas formas e grupos, mas identificamos em seu processo algo que o diferencia de outros feminismos anteriores. Enquanto os movimentos feministas dos anos 1960 e 1970 se multiplicaram pelo resultado de sucessivas cisões internas, resultando em grupos que buscavam ações identitárias afins, diferentes grupos ciberfeministas utilizaram a Internet para se reunirem, trocarem experiências e discutirem as relações entre gênero e tecnologia.

Dessa forma, este movimento, mesmo com seus variados grupos identitários, buscou uma aproximação para trocas e ações de experiências de diferentes fundos culturais em conjunto. Muitos dos grupos ciberfeministas utilizam as tecnologias de comunicação, como a Internet, não só para se organizarem em rede, mas também para construírem novos discursos que problematizam as questões de gênero através de trabalhos que vão desde a produção audiovisual e experiências com midiarte até as experimentações artístico-ativistas na Internet. Em suma, o Ciberfeminismo surgiu em uma época onde são cada vez mais polifônicas as narrativas, as identidades e até mesmo as próprias tecnologias. Porém, as potencialidades como movimento social trazidas pelo ciberfeminismo ainda são incipientes no âmbito brasileiro. O significado da comunicação e da informação, e consequentemente, sua globalização, criaram novos espaços de ação coletiva que devem ser, cada vez mais investigados, questionados e publicizados por mulheres, para mulheres, em especial , as brasileiras!

Fonte: http://br4d4.wordpress.com/2010/03/01/ciberfeminismo-velhas-novas-praticas-do-feminismo-em-redes-eletronicas/


Resumo do capítulo 1 do livro “As Donas do Poder: mulheres e política na Bahia”

1- A construção do pensamento feminista sobre o “não poder” das Mulheres

“O poder é a essência do cativeiro da mulher e dos cativeiros das mulheres” (Marcela Lagarde)

Neste primeiro capitulo, a autora apresenta a relação histórica entre Poder e Mulher, sujeito do feminismo. Aponta que “as mulheres tem estado do outro lado do exercício do poder, do lado da condição de subalternidade” e que reproduzem este poder concentrado e controlado pelos Homens.

1. O Marxismo

Karl Marx e Frederic Engels foram os primeiros a sistematizar uma analise da condição subalterna da mulher nas sociedades modernas, deixando de lado explicações biológicas, e partindo para “todo o processo histórico ligado ao desenvolvimento das forças produtivas e, como conseqüência deste, da própria família”.

Engels propõe a idéia de uma Divisão natural do trabalho: enquanto o homem, responsável pela busca de alimentos, através da pecuária e agricultura, criou a possibilidade de formar excedentes e, conseqüentemente, o surgimento da propriedade privada, a mulher se depara com o dever familiar de ser responsável pelo trabalho domestico e é excluída da acumulação desta nova riqueza.

“O homem desejoso de transmitir sua riqueza a seus descendentes, imporá ser domínio sobre a mulher, tornando-a escrava, como uma forma de garantir à paternidade dos filhos” (p. 20).

Ou seja, para o Marxismo clássico, a opressão feminina é fruto da propriedade privada. Essa analise apresenta diversos problemas:

1. Colocar a questão da propriedade privada como a responsável pela opressão feminina.

2. A existência de um matriarcado como forma de organização familiar de caráter universal e sempre anterior ao patriarcado.

3. A Divisão natural do trabalho propõe uma divisão “natural” e não resultado das relações sociais de produção.

Marx enxerga na procriação a perpetuação da força de trabalho. Já que o possuidor da força de trabalho é mortal, “a soma dos meios de vida necessários para a produção da força de trabalho inclui, portanto, os meios de vida dos substitutos, isto é, dos filhos dos operários” (Marx).

A reprodução da força de trabalho através da procriação implica o cuidado em socialização dos futuros operários. Trabalho realizado pela mulher de maneira privada, na esfera domestica, isto é, o trabalho doméstico:

a) conservação e transformação de alimentos, roupas (meios de vida necessários).

c) o trabalho doméstico não remunerado barateia a força de trabalho e, conseqüentemente, a mais-valia.

A divisão do trabalho por sexo e idade cria a base para a opressão da mulher ao impor a dependência econômica dos homens e a divisão do trabalho (por idade) cria base material para o patriarcado ao impor a dependência econômica dos pais. Ambas dependências são tanto genéticas como biológicas. (Batya Weinbaum)

O marxismo não deu conta dos questionamentos da problemática feminina “por não levar em conta as relações nas quais as mulheres estão envolvidas como reprodutoras da espécie e a ‘estruturação hierárquica da sociedade'” (p.25). A liberação feminina requer mais que uma mudança nas relações de produção, pois, mesmo em uma sociedade comunista, a vida ainda estaria estruturada segundo uma divisão sexual do trabalho.

2. O patriarcado e o Feminismo radical

Simone Beauvoir, em o Segundo Sexo, incorpora as dimensões psicológica e cultural às analises de Marx e Engels.

“Nenhuma mulher nasce mulher, se torna mulher” (Simone Beauvoir), ou seja, a tradição, os costumes, a cultura convertem e constroem o sujeito mulher.

Millet defende que “a relação entre homens e mulheres é uma relação política e o domínio do homem sobre a mulher se baseia na crença generalizada de sua supremacia biológica sobre esta” (p. 29). Para Millet, o patriarcado é “uma instituição revestida de aspectos ideológicos e biológicos que tem a ver com a divisão social, os mitos, a religião, a educação e a economia”.

Firestone vê na função reprodutiva da mulher (e, em função disso, a família biológica) a base de sua opressão. Para ela “o desequilíbrio sexual do poder está fundamentado biologicamente”.

Para Mackinnon, “assim como a apropriação organizada do trabalho de alguns em beneficio de outros define uma classe (trabalhadores), a expropriação organizada da sexualidade de uns para o uso de outros define o sexo para as mulheres. A heterossexualidade é sua estrutura: gênero e família são suas formas cristalizadas, papeis dos sexos são suas qualidades generalizadas para a pessoa social; a reprodução é uma consequência; o controle é seu problema”.

Os posicionamentos das feministas radicais sofreram uma serie de criticas, em especial por seu caráter biologista e não histórico.

Rubin critica o termo patriarcado, pois defende que este obscurece as outras distinções presentes na sociedade. Propõe o termo “sistemas sexo/gênero”.

Eisenstein critica o conceito de “classe sexual” de Firestone e afirma que este conceito “separa de maneira artificial as esferas sexual e econômica substituindo o capitalismo pelo patriarcado como sistema opressor”. Eisenstein critica também a idéia de que o corpo da mulher define sua existência, uma vez que a sexualidade não pode explicar toda a complexidade das relações de poder na nossa sociedade.

Joan Scott aponta que as teorias do patriarcado baseiam a analise na diferença física: “Toda diferença física tem um caráter universal e imutável. Uma teoria que se baseia na variável única da diferença é problemática para os (as) historiadores (as)”.

3. O não “tão estranho” casamento entre feminismo e marxismo

Para muitas, a questão do trabalho doméstico foi o ponto de partida. As feministas socialistas assimilaram a idéia de que a subordinação da mulher é anterior ao capitalismo.

“A liberação da mulher requer algo mais que uma mudança no sistema econômico” (Weinbaum)

Juliet Mitchell postula que “as estruturas-chaves da situação da mulher são: a produção, a reprodução, a sexualidade e a socialização das crianças que, combinadas, produzem a unidade complexa de sua opressão”.

A autora defende ainda que “as mulheres devem se organizar, enquanto mulheres, para mudar a ideologia fundamental da sociedade humana” e completa ” as mulheres podem ser as pontas de lança da mudança ideológica geral, da mesma forma que a classe operaria é o agente da superação do modo de produção capitalista”.

Para as feministas socialistas, a opressão e a exploração eram resultados de esferas distintas de poder. No entanto, as duas estruturas (patriarcado e capitalismo) convivem na sociedade através da divisão sexual do trabalho na família em um processo de dependência mutua.

O patriarcado está também determinado pelas necessidades do capital na medida em que proporciona a organização hierárquica da sociedade necessária para o controle politico.

Combes e Haicault concluem que no seio de toda sociedade coexiste uma produção social de bens e uma produção social de seres humanos (reprodução). “Com efeito, a designação prioritária das mulheres para a reprodução sempre foi acompanhada de sua exclusão no campo sociopolítico” (COMBES e HAICAULT).

3.1 Saffoti e a simbiose “patriarcado-racismo-capitalismo”

Simbiose – associação de organismos

Para Saffoti, o conceito de patriarcado pode-se entender “como um dos esquemas de dominação-exploração componentes de uma simbiose da qual participam também o modo de produção e o racismo”.

Para a autora, o patriarcado e o capitalismo não são sistemas autônomos ou independentes. Ao contrario, são formas mutuamente constitutivas de dominação: classe e gênero são construídos simultaneamente ao longo da historia.

“O sistema de classes não se realiza exclusivamente no campo econômico, pois se trata de uma realidade multifacética, onde têm lugar outros tipos de dominação: social, cultural, política, ideológica, além da econômica”. De outra parte, o patriarcado não pode ser reduzido a um sistema de dominação política, pois em seu seio fluem os demais tipos de dominação, inclusive o econômico.

4. O conceito de gênero e as relações de gênero

Com base na diferença visível do seu sexo, os homens atribuíram gênero ao mundo visível que os rodeava.

“Na certeza visual de que seus corpos portavam uma diferenciação significativa, reguladora de uma precária organização social, foi que primitivamente a espécie humana ordenou, classificou, nomeou o caos aparente do universo” (OLIVEIRA N.)

Neusa Oliveira conclui que “ao idealizar a imagem feminina e masculina, a cultura acrescenta a seus corpos signos, símbolos, sinais, que tornam extensão anatômica e são somados ao sexo do individuo a partir do seu nascimento. A adição simbólica garante um consenso social sobre a imagem ideal da ‘performance’ corporal masculina e feminina”. Marta Lamas acrescenta que “esta simbolização cultural da diferença anatômica toma forma no conjunto de práticas, idéias, discursos, e representações sociais que dão atribuições à conduta objetiva e subjetiva das pessoas em função do seu sexo”.

A oposição binária homem/mulher é a chave na trama dos processos de significação. “A diferença sexual nos estrutura psiquicamente e a simbolização cultural da mesma diferença, o gênero, não só marca os sexos, mas também marca a percepção de todo os demais: social, o político, o religioso, o cotidiano” (LAMAS M.).

Joan Scott aponta a necessidade de “substituir a noção de que o poder social é unificado, coerente e centralizado por alguma coisa que esteja próxima do conceito foucaultiano de poder, entendido como constelações dispersas de relações desiguais constituídas pelos discursos nos ‘campos de força”.


Resumo do capítulo 1 do livro “As Donas do Poder: mulheres e política na Bahia”

A autora busca no primeiro capitulo do livro analisar a construção do movimento feminista, a opressão feminina e o não-poder das mulheres. Para tentar entender o posicionamento feminino de subalternidade nas relações de poder.

O Marxismo

Primeiramente analisa a questão pelo viés Marxista, longe do biologismo, para Kalr Marx e Frederic Engels a condição de dependência da mulher nas sociedades modernas não é fruto da sua natureza feminina e sim o resultado de todo processo histórico ligado ao desenvolvimento das forças produtivas e da própria configuração da família diante dessas mudanças. Analisando essa questão com o surgimento da agricultura e pecuária como o primeiro passo para a propriedade privada dividiu naturalmente as “obrigações” dos homens e das mulheres nesse nova configuração. O homem detém os utensílios de trabalho na terra,detentor do poder e a mulher se reserva às tarefas domesticas, dessa forma a mulher foi excluída da acumulação dessa nova riqueza e depois perde mais ainda o poder quando perde o direito materno. O homem no desejo do poder torna a mulher uma escrava, como forma de garantir a paternidade dos filhos.

Dessa forma, o marxismo clássico analisa o a opressão feminina como fruto da propriedade privada e do papel que a mulher passou a configurar, de mera reprodutora dentro da família. E a família burguesa patriarcal é o mantenedor que perpetua essa configuração, por torna-se célula reprodutora da sociedade baseada na propriedade privada (clasista).

Porém essa consepção de Marx  e Engels apresenta uma série de problemas e foi muito criticada pelos Marxistas que utiliza uma perspectiva de análise social, além de antropólogos, historiadores e as próprias teorias feministas.

Uma das primeiras críticas foi exatamente na questão da propriedade privada ser um fator fundamental para a opressão feminina. Muitos antropólogos analisaram experiências socialistas e que também ocorriam as mesmas opressões e até mesmo em sociedades mais primitivas, das quais não haviam uma estrutura classista baseada na propriedade privada e nelas as mulheres também estavam submetidas  a uma estrutura de dominação masculina.

Outro ponto de questionamento na teoria de Engels é a questão do matriarcado como organização familiar de caráter universal, que na linha teórica dele surgiu antes do patriarcado e que em muitos estudos em comunidades primitivas nunca se encontrou esse tipo de configuração familiar. Mesmo na sociedade iroqueza,sociedade que se aproxima do matriarcado, estudada por Morgan, nem mesmo ali a mulher tinha um papel de liderança.

E o ponto fundamental dessas críticas é na perspectiva das teorias feministas em relação à divisão natural do trabalho. Apontam como uma divisão “natural”, como se o trabalho doméstico fosse algo inerente à condição feminina e não como uma divisão fruto de uma configuração das relações sociais de produção. Nesse momento o movimento feminista internacional questionava o posicionamento de Marx, quando ele fala do “indivíduo” da classe operária e não de um “indivíduo” em abstrato, como até então é tratado na teoria social. No próprio pensamento de Marx há uma divisão entre homem e mulher, e que favorece o posicionamento masculino.

A partir daí o movimento feminista chegou a conclusão de que as mulheres deveriam se organizar uma luta especial para conseguir os mesmos direitos e não como Engels dizia, que a luta pela igualdade entre os sexos seria uma luta socialista onde todos lutariam por direitos iguais juntos. A tomada de consciência de que o marxismo não era a solução para as problemáticas femininas levou muitas feministas a buscar novas linhas de pensamento para suprir sua carências, e a teoria do patriarcado foi um passo nessa busca.

O patriarcado e o feminismo radical

Kate Millet foi a primeira teórica feminista que buscou, nos conceitos de poder e dominação patriarcal desenvolvidos por Max Weber, a base para uma explicação da subordinação feminina, mas ainda achava insuficiente para uma análise política social. Ela também retoma a Simone de Beauvoir, que buscou ampliar as análises de Marx e Engels, incorporando as dimensões psicológicas e culturais.

Usou como Weber como referência quando analisou que a relação que se estabelece entre homens e mulheres é uma relação política, e o domínio do homem sobre a mulher se baseia na crença generalizada de sua supremacia biológica sobre esta. Para Millet, o patriarcado é uma instituição construída na base da força e da violência sexual exercida contra as mulheres, na qual a violação é seu mecanismo principal de domínio.Para ela o patriarcado é uma instituição revestida de aspectos ideológicos e biológicos que tem haver com a divisão social, os mitos, as religiões, a educação e a economia.

Outra importante teórica do patriarcado, Shulamith Firestone, ressalta a função reprodutiva da mulher e a função da família biológica, a base de sua opressão. Para ela a o desequilíbrio sexual do poder está fundamentado biologicamente e somente com a liberação da mulher das cadeias da maternidade, através dos progressos na tecnologia da reprodução, deixaria de existir esse desequilíbrio.

As teorias do patriarcado são basicamente fundamentas nessa perspectiva de Firestone, mas podemos encontrar outras vertentes, por exemplo das “feministas radicais” como costumam ser identificadas, que definem o patriarcado como um sistema sexual do poder, como a organização hierárquica masculina que se perpetua através do matrimônio, da família e da divisão sexual do trabalho.Esse sistema de sexual de poder está fundamentado mais na biologia que na economia ou na história.Essa corrente de análise da condição feminina tenta  buscar as origens da opressão específica no caráter específico que tem as relações da mulher com a produção, que as fazem produzir gratuitamente e sem receber em troca mais do que sua subsistência.

Apesar da contribuição realizada pelas feministas radicais na construção da teoria do patriarcado, seus posicionamentos sofreram uma série de críticas, em especial por seu caráter biologista e não histórico.

 

O não “tão estranho” casamento entre feminismo e marxismo

Como a teoria marxista era incapaz de explicar a totalidade de implicações que dizem respeito à condição feminina nas sociedades modernas, as teóricas feministas engajadas nessa corrente tentavam preencher os vazios deixados por Marx e Engels. Essas teóricas questionavam o trabalho domestico como ponto de partida para a análise. E mesmo as feministas radicais, ainda utilizavam o patriarcado para suas teorias, mesmo diante das críticas sofridas por elas.

As feministas socialistas analisavam a subordinação da mulher como algo anterior ao capitalismo e que a liberação da mulher requer algo mais que uma mudança no sistema econômico. Nessa linha teórica Juliet Mitchell merece um destaque com a sua visão Crítica da teoria marxista clássica sobre a condição da mulher. Onde ela afirma que o papel de reprodutora converteu a mulher, no capitalismo, em complemento espiritual do papel do homem na produção, dessa forma a mulher foi excluída da produção social. Dessa forma analisa que no capitalismo, onde o trabalho constitui uma alienação na elaboração de um produto social que é confiscado pelo capital, a reprodução adquire uma aspecto também de exploração.

Para Mitchell, é na sexualidade que tradicionalmente a mulher tem sido mais oprimida, como objeto sexual progenitor e reprodutor. E a família é um reforço para essa opressão. E para ela a condição para a libertação da mulher de sua posição de opressão é uma luta específica contra o patriarcado.

Para as feministas socialistas, a opressão e a exploração eram resultado de esferas distintas do poder. A opressão estava baseada na organização sexual da sociedade (o patriarcado), enquanto que a exploração estava baseada na estrutura classista da sociedade. As duas estruturas (patriarcado e capitalismo) convivem, assim, na sociedade, através da divisão sexual do trabalho na família e na produção social, em um processo de dependência mútua. Nesse sentido, as feministas socialistas recuperam a teoria do patriarcado sem isolá-lo da estrutura econômica, como faziam as feministas radicais.

Saffioti e a simbiose “patriarcado-racismo-capitalismo”

Saffioti ressalta que não se pode entender o patriarcado e o capitalismo como sistemas autônomos ou independentes, os dois são duas face do mesmo sistema produtivo e devem ser examinadas de forma integrada. Salientando dessa forma que a classe e gênero são construídos simultaneamente ao longo da história e por isso seria impossível separá-los, apenas para fins analíticos.

Nessa mesma linha de raciocínio Saffioti critica a posição das feministas socialistas, no que se refere ao patriarcado capitalista. Isso implica considerar que o patriarcado e capitalismo como faces distintas do mesmo modo de produzir e reproduzir a vida.

O conceito de “gênero”e as “relações de gênero”

Ao longo do texto percebemos a tentativa teórica de entender as relações de poder nas sociedades modernas, analisando estruturas dessas sociedades, como o patriarcado, o capitalismo, as relações políticas, sociais, raciais, para entender as relações de desigualdade social das mulheres. Ao longo dessas analises essas teóricas buscam também um conceito que pudesse sintetizar essas relações de desigualdade que pudesse abranger as causas que se dá nessas relações desiguais.

Millet usou, pela primeira vez, o conceito de gênero na teoria feminista em 1969, mas somente na segunda metade da década de 80 incorporou-se esse conceito à analise feminista. Esse conceito busca “explicar” as relações dos sexos (homem e mulher) em relação às suas redes sociais, relembrando a Simone de Beauvoir que afirmou que “não se nasce mulher, se torna mulher”.

Esse conceito foi muito mal utilizado pelas feministas com tradições marxistas durante algum tempo. Mas ele não substitui a perspectiva da simbiose patriarcado-racismo-capitalismo. Esse conceito será utilizado somente como instrumento de análise da subordinação feminina, e não como um instrumento para escondê-la.


Alunos de comunicação da PUCRS cobriram o 12 International Free Software Forum

29 de Junho de 2011, por Marco Antonio Mello de SouzaSem comentários ainda

Fotocomunicacao

O fisl12 não é grande só pelo número de visitantes, expositores e palestrantes. A equipe de comunicação responsável pela cobertura para a rádio, TV, site e redes sociais também representa o tamanho do evento. São 33 alunos da área de comunicação trabalhando nos quatro dias de fórum, além de profissionais contratados para cobrir o evento.

Os responsáveis pela coordenação da cobertura são a jornalista Thaís Rucker, Coordenadora de comunicação da Associação Software Livre.Org e Gabriel Galli, voluntário da associação, e aluno de jornalismo da PUCRS. “Essa é uma experiência desafiadora. A maior dificuldade é dar conta de tantos assuntos acontecendo simultaneamente, mas também é muito gratificante. Estamos contribuindo com a divulgação de informações muito importantes para a comunidade do software livre”, afirmou Gabriel.

A também aluna da PUCRS, Iasmine Lopes, está na área de TV e ressalta a diferença entre o trabalho no fisl e a realidade da faculdade. “É muita diferença entre a faculdade e essa experiência prática. Temos que lidar com a pressão do prazo de entrega e de um nível alto na qualidade do material. O lado bom é ver o que é produzido ser publicado. É legal ter uma outra visão do nosso trabalho”, comentou.

Outro aspecto lembrado é o tamanho da equipe na cobertura. O estudante de Midialogia na UNICAMP, Guilherme Bueno, também comenta a participação no fisl ,“participar de uma equipe deste porte para uma cobertura colaborativa é espetacular. Costumo participar de equipes menores, mas com a mesma proposta. Pretendo trabalhar com novas formas de produção cultural. A experiência que eu estou tendo é necessária para a articulação de um grupo e agentes culutrais”.

Fonte: http://softwarelivre.org/fisl12/fisl12/noticias/alunos-de-comunicacao-participam-de-cobertura-do-fisl12