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Resumo do texto Hackeando o Patriarcado

Boix inicia seu texto falando da ampliação das possibilidades de coordenação de estratégias e denúncias feministas com o advento das (já não tão) novas tecnologias da informação e da comunicação. Ela cita alguns nomes percussores do ciberfeminismo, como Haraway com seu manifesto ciborgue, as artistas da VNS Matrix na Austrália e os ensaios pioneiros da britânica Sadie Plant, e afirma que embora na Espanha não se tenham apresentado trabalhos tão pioneiros, a organização posterior de redes de denúncias contra a violência de gênero e os trabalhos acadêmicos de nomes como Ana Martínez Collado e Ana Navarrete.
Ela fala então que a campanha realizada a partir de 1994 para denunciar a discriminação da população dos Chiapas, no México, constitui marco no ciberativismo, e fala na Marcha Mundial das Mulheres, que se consolida como agregador de diversos grupos. Menciona a denúncia contra a violência como nexo organizador de diversos grupos de diferentes tradições e origens.
Começa a citar diversas denúncias empreendidas por diferentes grupos contra a violência de gênero e mostrar o nexo de uma narração virtual múltipla para a visibilidade dos movimentos sociais. Se detém um pouco sobre a VNS Matrix, cujo objetivo era o de crackear a indústria pornô, quebrar-lhe as lógicas, subverter-lhe os códigos. Fala também da Parthenia, monumento global às vítimas de violência doméstica, publicando as histórias privadas de sofrimento das mulheres vítimas deste tipo de agressão e das hackers do antichildporn.org. Tudo isso para demonstrar a necessidade de ocupação do ciberespaço pelos movimentos sociais, com enfoque no movimento feminista.
Ela parte então para uma história particular do movimento ciberfeminista no estado espanhol, e então a seguir finaliza o texto com histórias de hacktivismo, como a da inversão das vozes de Barbies e GI Joes, bonecos, pelo grupo hacktivista Barbie Liberation Organization.
O fundamental deste artigo não é distinguir termos e conceitos, e sim deter-se nos exemplos de mediativismo, ciberativismo, hacktivismo etc. O que a autora faz é dar exemplos de grupos que hackearam o patriarcado, e convencer leitores e leitoras da importância de fazê-lo. Entrecortado por depoimentos, trechos de manifestos e povoado de hiperlinks, o artigo de Boix tem pretensões muito mais de mobilização social do que de discussão conceitual, mostrando a potencialização pelo ciberativismo da implosão de barreiras entre teoria e prática, já postulada pelos feminismos tradicionais.


Resumo de “Inclusão digital, software livre e globalização contra-hegemônica”, de Sérgio Amadeu

Este texto aborda a política de inclusão digital e o movimento de software livre como uma força a favor do desenvolvimento sustentável do Brasil, da luta contra a pobreza e da globalização contra-hegemônica. A introdução trata de alguns dos principais da política de combate à exclusão digital, questionando até que ponto isto é importante diante de carências maiores provocados pela exclusão social. A definição mínima de “exclusão digital”, segundo Amadeu, passa pelo acesso ao computador e os conhecimentos básicos para a sua utilização. Atualmente, esta noção está vinculada, também, com o acesso à Internet, pois segue a ideia de que um computador que não esteja conectado à rede possui possibilidades extremamente restritas no que diz respeito à era da informação. Segundo o autor, existem diversas outras definições, mas a questão fundamental para o desenvolvimento das ideias deste texto está pautada na falta de acesso à Internet.

O autor apresenta uma tabela com a posição dos países por números de hosts, apresentada pela Network Wizards em 2002. Nela, o Brasil é o décimo colocado em números de acessos mundiais, perdendo apenas dos Estados Unidos, Japão, Canadá, Itália, Alemanha, Reino Unido, Austrália, Holanda e França. Na tabela que compara os hosts nos países da América, o Brasil fica em terceiro colocado, apenas atrás dos Estados Unidos e do Canadá. Segundo o Censo 2002 do IBGE, apenas 10,6% dos domicílios brasileiros possuem computador, em um contexto em que menos de 40% possuem telefone fixo. Apesar do resultado apresentado pela Network Wizard, em termos relativos, temos menos linhas telefônicas do que nossos vizinhos Argentina e Uruguai e menos usuários individuais de Internet que Chile, Argentina e Peru.

A pesquisa Internet Pop, realizada pelo IBOPE em 2002 nas principais capitais brasileiras, mostrou que apenas 20% da população estava conectada à Internet, sendo que apenas 87% navegam com conexão de alta velocidade. Outras pesquisas realizadas mostravam que a situação das escolas, ensino médio e fundamental, também eram desanimadoras, com um pequeno número de estudantes com acesso à Internet e laboratórios de informática. Apesar de possuírem computadores, muitas escolas não tinham uma política educacional de seu uso como instrumento pedagógico.que, ao discutir

Segundo a Internet Business, de 2001, o Canadá e os Estados Unidos concentram 41% do acesso à Internet. Os países ricos usam bastante a Internet, enquanto os países pobres têm sua população bem distante dos benefícios das redes informacionais. O canadense Arthur Kroker, importante cientista político, alertou, em 1994, a formação de uma classe virtual que comandaria uma sociedade de ” info-ricos” e “info-pobres”. Segundo sua hipótese, a tecnologia trouxe mais desigualdade e mais dificuldade de superação.

Amadeu afirma que não seria exagero apontar a sociedade como tecnodependentes, pois, dificilmente seria encontrado algum exemplo histórico em que a sociedade não se organizasse de acordo com as principais tecnologias de seu período. O autor cita, então, Anthony Smith, que, em 1999, comparou a informação a um recurso social primário e apontou que a dependência informacional dos países periféricos poderia ser muito mais difícil de romper do que a existente nos períodos colonial e industrial. Amadeu desenvolve, então, a ideia de que a dinâmica capitalista e o barateamento das tecnologias de informação e comunicação estão possibilitando à sociedade ter mais acesso a elas, porém a elite as utiliza muito tempo antes de sua popularização.

O autor cita André Lemos, professor da Universidade Federal da Bahia, que, ao discutir o processo de virtualização das cidades nas sociedades atuais, disse que “o que está em jogo com as cibercidades é o intuito de lutar contra a exclusão social, regenerar o espaço público e promover a apropriação social das novas tecnologias”. Porém, até o momento, infelizmente, o que pode ser percebido é o alargamento da distância entre excluídos e incluídos. Mesmo com o constante barateamento das tecnologias, ainda percebemos uma grande disparidade de acesso às mesmas. Na América Latina, isto é nítido. No início do século XXI, 60% das crianças dessa região eram pobres e sem acesso às necessidades básicas. A revolução internacional não tem ajudado a reduzir a miséria.

A globalização não diminuiu a distância entre os pobres e os ricos. De acordo com Boaventura de Souza Santos, globalização é o conjunto de trocas desiguais pelo qual um determinado artefato, condição, entidade ou identidade local estende a sua influência para além das fronteiras nacionais e, ao fazê-lo, desenvolve a capacidade de designar como local outro artefato, condição, entidade ou identidade rival. Ele considera que a globalização é um fenômeno produzido e assimétrico (inclusão e exclusão em proporções diferenciadas).

O autor, então, desenvolve a ideia de Souza Santos e chega à afirmação de que a luta pelo digital pode ser uma luta contra a globalização contra-hegemônica. A luta pela inclusão digital não pode estar separada da defesa de processos que defendam a construção de identidade no ciberespaço pelos grupos sociais desprivilegiados, assim como a ampliação do multiculturalismo e da diversidade.

Os modelos de combate à exclusão social

Segundo Amadeu, no mínimo quatro pressupostos são assegurados a partir da ideia de transformar a inclusão digital em políticas públicas. São eles: o reconhecimento de que a exclusão digital amplia a miséria e dificulta o desenvolvimento humano e local; o mercado não irá incluir na era da informação a parte da população desprovida de dinheiro;  a velocidade da inclusão é decisiva para que a sociedade tenha sujeitos e quadros em número suficiente para aproveitar as brechas de desenvolvimento no contexto da mundialização de trocas desiguais e, também, para adquirir capacidade de gerar inovações; e, por fim, o direito à comunicação é sinônimo de direito a comunicação mediada por computador, sendo, então, uma questão de cidadania.

A política pública em questão não deve estar ligada apenas ao papel do Estado. As empresas precisam agir, assim como outras associações e organizações. Muitas ONGs já realizam projetos de inclusão digital. Projetos como o Sampa.org, CDI-SP, CDI, Rede favela (RJ), Informática na Comunidade, Garagem Digital são exemplos de iniciativas do terceiro setor. A eficácia dessas ações ainda não pode ser notada devido à dispersão das atividades e à ausência de indicadores consolidados.

É fundamental determinar quais são os papéis de cada uma dessas instâncias no processo de inclusão digital. Apesar as ONGs terem experiência e uma atuação mais ágil do que a do Estado, elas dependem diretamente do financiamento do mercado ou do próprio Estado. Amadeu questiona, então, se caberia ao mercado o papel de formular políticas públicas de inclusão digital. Para ele, há dois caminhos: o mercado poderia desvirtuar as políticas públicas, subordinando as metas de universalização e projetos mais viáveis de inclusão aos interesses mercantis de determinadas empresas; por outro lado, as empresas poderiam realizar parcerias importantes com o poder público, investindo em instrumentos de inclusão digital, como, por exemplo, telecentros.

O autor define três focos distintos no discurso e nas propostas de inclusão: inclusão digital voltada à ampliação da cidadania; o combate à exclusão digital como elemento voltado à inserção das camadas pauperizadas ao mercado de trabalho na era da informação; a importância da formação sócio-cultural dos jovens, na sua formação e orientação diante do dilúvio informacional, no fomento de uma inteligência coletiva capaz de assegurar a inserção autônoma do país na sociedade informacional. Esses três focos não são conflitantes entre si.

Disso, o autor segue para o objeto da inclusão digital. É possível distingui-la como o acesso: à Internet; aos conteúdos da rede; aos e-mails e aos modos de armazenamento de informações; a linguagens básicas (MP3, chats etc.); às técnicas de produção de conteúdo (html, xml e assim por diante); e, por fim, à construção de ferramentas e sistemas voltados às comunidades (programação, design etc.). Em geral, a maioria dos programas de inclusão digital estão voltados apenas para o acesso à Internet, esquecendo que isso é apenas um passo inicial. Dessa forma, fica cada vez mais visível que é possível diferenciar as políticas de inclusão digital, levando em consideração diferentes modelos, que podem ser considerados a partir de seis blocos:

1 – Unidades de Inclusão: bibliotecas informatizadas e conectadas à rede; laboratórios escolares de informática conectados à Internet; salas de aula informatizadas e conectadas; telecentros; quiosques (em geral, com um número pequeno de computadores conectados); totens ou orelhões de Internet.

2- Opções Tecnológicas: sistema operacional livre ou proprietário; hardware com soluções inovadoras, como thin-client, ou tradicionais do uso individual e caseiro; aplicativos copyright ou copyleft; voltados à interação e à solução de problemas das comunidades;

3- Atividades Disponíveis: uso livre, limitado ou monitorado; impressão de documentos; cursos presenciais e à distância; acesso à correio eletrônico e a área de arquivo própria; atividades comunitárias em rede;

4- Monitoria da Unidades: com ou sem monitores e orientadores contratados; com ou sem o envolvimento de voluntários; com ou sem o controle da comunidade, a partir de conselhos gestores eletivos.

5- Sustentabilidade das unidades: recursos do fundo público; recursos das empresas; contribuições individuais e coletivas; cobrança do usuário.

6- Autonomia e participação das Comunidades: comunidades com poder de decisão sobre a gestão; comunidades com poder consultivo sobre a gestão; comunidades com poder fiscalizador sobre a gestão; comunidades com poder orçamentário sobre o programa; comunidades com poder de planejar o futuro do programa.

Para Amadeu, o modelo mais eficaz de atividades de inclusão digital passa pelo envolvimento da comunidade no processo decisório e de planejamento, assim como envolvimento de ONGs no gerenciamento e na organização das atividades de inclusão digital.

Inclusão e liberdade: a questão do Software Livre

Amadeu afirma que o software livre é a maior expressão da imaginação dissidente de uma sociedade que busca mais do que a sua mercantilização. É um movimento baseado no compartilhamento do conhecimento e na solidariedade. Em 1985, o surgimento da Free Software Foundation começou o movimentocom a ideia de produzir um sistema operacional livre. Os vários esforços de programação eram reunidos em torno do nome GNU (Gnu Is Not Unix). A Licença Pública Geral (GPL, em inglês) foi imposta, afim de que os esforços não fossem utilizados indevidamente: isto ficou conhecido como copyleft, em oposição ao copyright. O GPL é aplicado em tudo o que o direito autora pode ser aplicado: músicas, livros, softwares etc.

Com a difusão da Internet, o movimento ganhou força e produziu um sistema operacional livre e multifuncional, o GNU/LINUX, fruto do trabalho de mais de 400 mil desenvolvedores espalhados pelos 5 continentes e por mais de 90 países. O sistema operacional da Microsoft, maior desenvolvedora de softwares, é produzido por uma empresa que tem em seu quadro fixo cerca de 30 mil funcionários, localizados nos Estados Unidos.

Na lógica de softwares proprietários, os usuários não possuem acesso ao código-fonte nem podem contribuir constantemente com o aprimoramento do sistema. Com isso, a inovação dos software livres podem ser muito maiores do que a inovação dos proprietários. O próprio mercado começou a utilizar o software livre. Apesar disso, o sistema proprietário ainda domina o mercado de computadores pessoais, em um desequilíbrio claramente visível.

O Brasil, com todo seu potencial produtivo e criativo, deve investir em políticas de inclusão digital a partir de uma perspectiva que incentive a queda do valor pago de royalties ao exterior e incentive o crescimento das empresas nacionais, sem vetar, claro, as empresas multinacionais em nosso país. Amadeu afirma que, “em síntese, é fundamental integrar a política de inclusão digital, de informatização das escolas, das bibliotecas públicas e à adoção de TI como instrumento didático-pedagógico à estratégia de desenvolvimento tecnológico nacional.” Outros argumentos para o uso de software livre nas políticas de inclusão digital diz respeito aos recursos economizados com as licenças de propriedade; o incentivo na formação e profissionalização nesta área, pois os telecentros, por exemplo, precisariam de mão de obra especializada; e, “como último argumento listado, não é correto utilizar dinheiro público para formar e alfabetizar digitalmente os cidadãos em uma linguagem proprietária de um monopólio privado transnacional”. O sistema operacional é o item mais importante de um computador, por ser uma linguagem que possibilita a comunicação homem-máquina e homem-máquina com outro homem-máquina. E o fato de os sistemas proprietários serem construídos afim de evitarem a compatibilidade com outros sistemas concorrentes causa o monopólio, e o dinheiro público deve ser utilizado para incentivar a proliferação de linguagens e softwares essenciais de domínio público.

Para exemplificar os argumentos acima, Amadeu afirma que caso o TCP/IP, principal linguagem da Internet, fosse de propriedade privada de uma empresa, provavelmente a rede mundial de computadores não teria a penetração e perfil democrático que tem hoje. Segundo ele, “o combate à exclusão digital está intrinsecamente ligado à democratização e desconcentração do poder econômico e político”.

Conclusão: livre e includente

Para concluir, o autor afirma que a visão de que o uso de computador só é importante para a profissionalização da população deve ser deixada para trás. As crianças e adultos que estão fora da escola também devem ser incluídos nas políticas de inclusão digital. A comunicação mediada por computadores deve ser realidade de todos, inclusive da parcela pobre da população. O controle das linguagens tecnológicas devem estar acessíveis a todos. Forma-se um claro vínculo entre o software livre e o combate à exclusão digital.

Incluir digitalmente é um grande passo contra a miséria e sua proliferação. O compartilhamento de softwares e de conhecimento é decisivo para a democratização tecnológica. A liberdade, a contra-hegemonia, a autonomia e a desconstrução de monopólios devem ser incentivados em prol da inclusão digital.

(O texto original pode ser encontrado aqui.)


Resumo do texto Nuevas tecnologias y género: la segunda brecha digital y las mujeres (Cecilia Castaño)

Pode parecer que, com o aumento de usuários de computador e internet, diminuiu a divisão entre homens e mulheres, no entanto, a segunda divisão, relativa aos usos e habilidades parece difícil de resolver.

A difusão tecnológica que ocorreu com a televisão e o telefone móvel, por exemplo, sugerem que estes processos de difusão eliminam as diferenças econômicas e sociais. Porém, nem todas as nações, nem todos os cidadãos incorporam as inovações no mesmo ritmo, alguns, inclusive, nem chegam a incorporar.

Mesmo que o individuo se torne usuário não significa que este seja um usuário avançado. As empresas necessitam incorporar as inovações tecnológicas. Como consequência, provoca um processo de substituição de empregos: enquanto se destroem alguns, criam-se outros.

Rogers diferencia os indivíduos em cinco grupos:

1 – Inovadores

2 – Early Adopters – Lideres sociais com alto nível intelectual

3 – Early Majority – Prudentes e com grande rede de contato

4 – Late Majority – Baixo status socioeconômico

5 – Retardados – Tradicionais ou isoladas em seu sistema social

Roger deduz que para que o acesso seja efetivo, a possibilidade de acesso deve ser somada ao conhecimento, interesse, assim como a utilidade e aplicabilidade desta ferramenta para objetivos pessoais.

O estudo da Divisão Digital deve ir além do acesso à internet e analisar os usos e sua intensidade.

Alguns autores consideram a tecnologia o caminho potencial de exclusão social, pois a ausência de tecnologia constitui uma desvantagem para certos grupos sociais. Outros insistem que a existência de divisões digitais constitui uma barreira para o desenvolvimento de uma “Sociedade de Informação Equitativa”.

A barreira mais difícil de derrubar não é a do acesso (1ª divisão), mas a do uso (2ª divisão).

Rogers define a divisão digital como “a divisão que existe entre indivíduos que tiram proveito da internet e aqueles outros que estão em desvantagem relativa a respeito da internet”.

Divisão do Conhecimento: os seguimentos com nível socioeconômico mais elevado tendem a apropriar-se a uma velocidade mais rápida que os indivíduos de nível mais baixo. Aumentando, assim, a divisão em lugar de reduzir. Acesso não é o suficiente. É necessário também possuir determinadas habilidades para manusear um computador (complexo artefato multitarefa).

O que faz dos computadores “radicalmente diferentes, sem dúvidas, é que é uma ferramenta muito poderosa para trabalhar e aprender, e que requerem uma certa capacidade de memoria e de pensamento abstrato, que constituem a base das habilidades de aprendizagem”.

A internet é uma inovação caracterizada por um alto grau de vantagem relativa. Pensamos que está ao alcance de todos, mas, na verdade, requer certas capacidades para buscar informações, processa-las e utiliza-las para alcançar determinados objetivos.

A segunda Divisão está relacionada com a divisão do conhecimento, com as “habilidades digitais”. Gilster propõe o termo “Digital Literacy” (Alfabetização digital) para definir a capacidade de adaptação às novas “Tecnologias da Informação e Comunicação” (TIC). Surpreende a pequena quantidade de pessoas que possuem estes conhecimentos, incluindo jovens e licenciados universitários.

Os benefícios da Digital Literacy são evidentes e implica em adquirir conhecimentos de busca, classificação, avaliação e apresentação da informação.

As diferenças entre homens e mulheres se dão em todas as sociedades atuais. Os homens são usuários mais regulares de internet que as mulheres em todos os países e grupos de idade, além de muito mais homens que mulheres ocuparem empregos de informática na U.E.

Em todas as idades, a proporção de mulheres com níveis altos de habilidade em informática e navegadores é menor que de homens. A proporção de mulheres que trabalham profissionalmente com informática é muito pequena e não vem melhorando. A preocupação é que estas diferenças de gênero nas profissões de informática não parecem que tende a reduzir no futuro.

Três tipos de fatores que afetam o uso do computador e da internet: Capital humano; Contexto familiar; Contexto Social.

Estatísticas mostram que existe uma relação positiva entre o capital humano de uma pessoa e seu uso privado do computador e da internet.

As desigualdades de gênero no mercado de trabalho se manifestam de várias formas: o emprego feminino se concentra em atividades menos relevantes do ponto de vista da informatização e do acesso à internet, além de uma presença muito escassa das mulheres em profissões de alta tecnologia e de internet.

No contexto familiar, afeta, além da renda familiar, a presença de menores de idade que são um incentivo para dispor de um computador e acesso a internet.

Parece que há razão para ser otimista, porque em todos os países aumenta o numero de usuárias.

As novas tecnologias podem contribuir para melhorar a posição das mulheres no mercado de trabalho. Teletrabalho, a teleoperação, parecem alternativas apropriadas para mulheres que necessitam combinar o emprego com as responsabilidades familiares.

É um erro, portanto, confundir o aumento do número de usuárias com a desaparição da divisão digital. O nível de estudo não reduz o tamanho e a intensidade desta divisão de gênero, mas, inclusive, a acentua.

As mulheres estariam prisioneiras de uma certa “tecnofobia”, devido a hábitos patriarcais que persistem na família, na escola e nos meios de comunicação que educam os meninos a explorar e conquistar o mundo e as mulheres para cuidar dos demais. A educação cientifica se considera mais necessária para os homens e isto cria barreiras para as mulheres, pois há tratamento diferenciado mesmo em sala de aula.

É essencial a produção e compilação urgente de dados e informação qualificada que permita aprofundar e abordar solidamente o tema da desigualdade digital. Sem dados não há visibilidade e sem visibilidade é impossível elaborar políticas para superar a divisão digital de gênero.

O objetivo é fazer possível que utilizem as tecnologias ao mesmo nível e com a mesma destreza que os homens e que ocupem postos similares a eles.


Resumo do texto Teoria Queer – Uma política pós-identitária para a educação

Guacira Lopes Louro começa seu texto Teoria Queer – Uma política pós-identitária para a educação, publicado na edição do segundo semestre de 2001 da revista Estudos Feministas e no seu livro Um corpo estranho: ensaios sobre sexualidade e teoria queer, observando como é notável o crescimento do interesse na temática da sexualidade que os últimos séculos têm observado. Como cada vez mais setores da sociedade a escrutinam com olhar cuidadoso, reivindicando sobre ela éticas e proliferando discursos a seu respeito. Lopes Louro argumenta que a sexualidade tem se tornado efetivamente uma “questão”, à medida que a religião, a antropologia, a filosofia, a ciência, a psiquiatria e a educação tentam compreendê-la, explicá-la, regulá-la, saneá-la, educá-la, enfim, normatizá-la.

Ela, a seguir, chama atenção para o fato de que as minorias – étnicas, de gênero, de classe etc. – vêm ganhando crescente visibilidade pública, o que, se por um lado aumenta a aceitação social de tais grupos, por outro, faz retomarem fôlego as reações conservadoras, das campanhas pelos valores tradicionais à violência física, e chama atenção, citando a revista La Gandhi Argentina, para o fato de que o termo “minorias” não se refere necessariamente a inferioridades numéricas, mas muitas vezes a maiorias silenciadas que, uma vez politizadas, positivam o estima que lhes é imposto (p. 542).

A partir daí, Lopes Louro traz enfim a questão-chave da teoria queer, o problema de não apenas reconhecer que as posições de gênero e sexuais se proliferaram, mas entender que existem sujeitos habitando essas fronteiras, e que elas são constantemente atravessadas. Tendo isso em mente, e sendo uma pesquisadora da área de educação, ela se pergunta o que os educadores podem fazer face à inaptidão do cânone para lidar com esses sujeitos sociais.

A autora começa a explicar a noção que Michel Foucault apresenta na sua História da sexualidade de que, se até o século XIX a prática sexual entre dois homens é entendida como sodomia, um tipo de pecado religioso e moral, a partir daí ela define um novo tipo de sujeito. Cria uma nova ontologia. Inventa o homossexual. A partir da sua invenção até surgirem grupos de homossexuais que estivessem de fato construindo uma política identitária, demoraria algum tempo.

Os movimentos homossexuais organizados começam tímidos e marcados pela clandestinidade, até que alguns espaços esparsos de visibilidade começam a surgir, como as artes e certos jornais ou revistas. No Brasil, figuras como as de Ney Matogrosso e a das Dzi Croquetes têm suas performances marcadas pela ambigüidade, pelo embaralhamento de signos ligados ao masculino e ao feminino, e é só mais tarde que o Movimento de Libertação Homossexual surge, com forte presença de antigos exilados da ditadura, que trazem de volta ao Brasil o que mais novo há no cenário internacional em termos de movimentos sociais.

Nos grandes centros, aos poucos a condição homossexual vai sendo vista como atravessada por gênero, classe, raça e outras identidades, e surgem propostas tanto de integração social como (especialmente entre as feministas lésbicas) de radical rompimento com a sociedade burguesa e heterossexista. Aos poucos, forma-se uma comunidade e um movimento homossexual, cujas discussões são marcadas por questões como o coming out (saída do armário) e as representações de homossexuais nos meios de comunicação de massa. Começa a surgir uma identidade gay.

A construção de bases para a emergência de uma identidade baseada nas preferências sexuais, contudo, define os contornos do que é ser homossexual através da escolha do objeto de desejo, tornando a-histórica a homossexualidade e apagando a origem do seu surgimento no século XIX, minando a possibilidade da emergência de sujeitos cuja identidade pudesse ser mais ligada às práticas do que aos objetos de desejo, como os sadomasoquistas, e empurrando os bissexuais para um limbo de identidades menos bem-resolvidas (aqui, Guacira compara a posição de exclusão dos bissexuais no que tange a sexualidade à exclusão das transexuais no que tange ao gênero concebido de modo essencialista).

A partir dos anos 70, homossexual não é mais uma categoria capaz de perturbar o status quo como anteriormente, sobretudo devido à política assimilacionista de tentativa de integração social praticada pelo movimento hegemônico, ainda que tensões internas relativas a origem, raça e geração estivessem em emergência. Vozes dissonantes no movimento criticavam ideais como o do relacionamento monogâmico e a marginalização pelos próprios gays de grupos desprivilegiados com relação a gênero, raça ou classe. A AIDS só veio complicar ainda mais essa situação a partir dos anos 80, renovando a ação homofóbica e, ao mesmo tempo, em contracorrente, criando redes de solidariedade que se formavam mais em torno dos infectados (a partir de um momento também heterossexuais) do que da identidade gay e pondo a ênfase sobre aspectos da prática sexuais (como o sexo seguro) que não diziam respeito exclusivamente a uma identidade.

A partir daí, os homossexuais ganharam visibilidade no Brasil, a educação sexual entrou nas diretrizes curriculares do ministério da educação e o movimento começou a mostrar cada vez mais rachaduras. Havia ainda um movimento hegemônico assimilacionista que confiava nos fáceis binarismos de gênero e sexualidade, mas começaram a emergir movimentos de sujeitos que os desafiavam, fosse questionando a fixidez das fronteiras, fosse vivendo justamente nelas.

A partir de então, Lopes Louro começa a falar em uma teoria e uma política pós-identitária. Explica que queer pode ser traduzido por estranho, ridículo, excêntrico, raro. Inicialmente um insulto, o termo vem sendo positivado e apropriado por grupos que se insurgem contra as normatizações da sociedade, sobretudo no que diz respeito à heteronormatividade compulsória, reverberada até mesmo no discurso do movimento gay hegemônico. Louro afirma que a política queer se articula com com a produção de um grupo de intelectuais ligados ao pós-estruturalismo e ao desconstrucionismo, não obstante suas grandes diferenças internas, que a partir dos ano 90 usa esse termo para identificar seu trabalho intelectual e seu posicionamento político.

Louro destaca então a importância das teorizações de Freud (noção de inconsciente que abala a ideia de cartesiana de sujeito), Lacan (que aponta que a noção de “eu” surge através da imposição do olhar do outro), Althusser (ideia de sujeitos interpelados e capturados pela ideologia), Derrida (desconstrução dos binarismos) e Foucault (construção discursiva das sexualidades) para abalar as noções clássicas de sujeito e identidade, e também a relevância desses trabalhos, sobretudo o de Foucault, para o surgimento da teoria queer.

O texto então segue mencionando teorizações de pensadores propriamente queer, como Judith Butler. Louro evidencia a teorização de Butler de que os gêneros e sexualidades são conformados através da repetição de normas regulatórias que precisam ser constantemente reiteradas para que tal conformação se realize. Tais normas são, para Butler, performativas, no sentido de que inauguram aquilo que pretendem regular. Criam aquilo que nomeiam. Butler chama atenção, contudo, para o fato de que ao mesmo tempo em que a enunciação de tais normas pretende criar conformação, possibilita a fuga, uma vez que os corpos nunca se conformam completamente a elas. Elas criam o que é normativo e, o fazendo, abrem espaço para a existência do que não é, aquilo que Butler chama de abjeto.

Louro chama atenção para a crítica que Butler faz ao binarismo heterossexual/homossexual e às políticas de identidade, e fala em seguida da sugestão de uma política pós-identitária, cujo alvo não seria a vida ou destino de homens e mulheres homossexuais, mas a crítica à oposição binária homossexual/heterossexual.

Sendo a área de atuação de Guacira Lopes Louro a pedagogia, ela não deixa de falar sobre uma pedagogia e um currículo queer. Ela afirma que uma pedagogia queer não seria aquela que simplesmente trataria das temáticas de que trata a teoria queer propriamente, mas aquela que abraça a sua própria proposta metodológica de duvidar das certezas, pensar o impensável, conceber a diferença como constituinte do sujeito, e não como mera curiosidade exótica. Enfim, trazer no seu bojo uma epistemologia perversa, subversiva, impertinente, irreverente, profana, desrespeitosa (p. 550).


Resumo do texto “Teoria Queer: uma política pós-identitária para a educação”, de Guacira Lopes Louro

Nos últimos vinte anos, a sexualidade tem recebido grande atenção de cientistas, religiosos, antropólogos, educadores e estudiosos em geral, sendo, desde então, entendida das mais diferentes maneiras. Segundo Lopes Louro, Foucault certamente diria que, atualmente, proliferam cada vez mais os discursos sobre o sexo e que as sociedades continuam produzindo, avidamente, um “saber sobre o prazer” ao mesmo tempo que experimentam o “prazer de saber”.

Hoje, as “minorias” sexuais estão mais visíveis e, consequentemente, a sua luta com os conservadores está mais explícita. Porém, parece impróprio o termo “minorias”. Como afirma a revista La Gandhi Argentina, em uma edição de 1998, “as minorias nunca poderiam se traduzir como uma inferioridade numérica mas sim como maiorias silenciosas que, ao se politizar, convertem o gueto em território e o estigma em orgulho – gay, étnico, de gênero”. Lopes Louro defende que a visibilidade possui dois lados: uma crescente aceitação da pluralidade sexual, mas, também, o aumento de ataques dos tradicionais, que realizam desde discursos em prol dos “valores tradicionais da família” até agressões extremas. As fronteiras vêm sendo extravasadas e, com isso, novas questões – sem respostas certeiras – estão surgindo.

Construindo uma política de identidade

Antes, relações sexuais entre pessoas do mesmo século eram consideradas atividades pecaminosas. Hoje, esta prática define um tipo de sujeito marcado e reconhecido, categorizado como um “desvio da norma”. Nadando contra a corrente, algumas pessoas contestam a sexualidade legitimada e se arriscam a viver fora dos limites, expondo-se, muitas vezes, à violência e à exclusão social. Os diferentes campos (ciência, justiça, religiões, conservadores etc.) passam a atribuir a este grupo sentidos distintos. Desta forma, a homossexualidade transforma-se em questão socialmente relevante, sobretudo o seu significado moral: uns assinalam a inferioridade ou anormalidade do homossexual e outros lutam por sua normalidade e naturalidade, mas todos parecem de acordo de que se trata de um ‘tipo’ de humano distinto.

Até o início dos anos de 1970, esses são os discursos mais expressivos. A organizações de grupos homossexuais ainda é fraca e, muitas vezes, clandestina. Aos poucos, principalmente nos Estados Unidos e Inglaterra, a questão da homossexualidade começa a surgir em revistas, artigos isolados, teatro etc. No Brasil, começa a aparecer nas artes, publicidade, teatro. Alguns artistas passam a apostar na ambiguidade sexual, pertubando a sociedade. O cantor Ney Matogrosso e o grupo Dzi Croquettes misturam referências femininas e masculinas em suas performances e, segundo João Silvério Trevisan, acabam por desempenhar um papel importante no debate sobre política sexual no Brasil. A partir de 1975, emerge o Movimento de Libertação Homossexual no Brasil, do qual participaram, dentre outros, intelectuais exilados durante a ditadura militar e que traziam, de suas experiências no exterior, inquietações políticas feministas, sexuais, ecológicas e raciais.

Nos grandes centros, a homossexualidade deixa de ser vista como condição uniforme e passa a ser vista como dimensão de classe. A ação política torna-se mais visível e assume caráter libertador. As suas críticas voltam-se contra a heterossexualização da sociedade. Para alguns, o alvo é a integração social e, para outros, sobretudo para as feministas lésbicas, o caminho é a construção de uma comunidade própria. Intelectuais de diversas instituições internacionais mostram sua afinidade com o movimento e grupos militantes. Pouco a pouco, constrói-se a ideia de uma comunidade homossexual. No final dos anos 1970, a política gay e lésbica abandonava o modelo de libertação e se encaminhava para um modelo “étnico”; um grupo que buscava alcançar igualdade de direitos no interior da ordem social existente.

A afirmação da identidade homossexual implicava disputas quanto às formas de representá-la. Imagens homofóbicas e estereótipos exibidos na mídia passam a ser contrapostos por representações “positivas”. Surge um dilema fundamental para a comunidade: “assumir-se” ou “permanecer enrustido”. Segundo uma frase de Spargo (“to come home, of course, you first had to come out”), para fazer parte da sociedade homossexual, é indispensável tornar pública sua condição.

No final dos anos 1970, no Brasil, surgem jornais ligados aos grupos organizados e reuniões de discussão e de ativismo. Em conexão com o movimento político, muitas personalidades do campo artístico e cultural passam a se assumir publicamente. Sobretudo a partir dos anos 1980, a temática passa a constituir, também, uma questão acadêmica, discutida em algumas universidades e grupos de pesquisas.

O discurso sobre uma representação “positiva” da homossexualidade assume um efeito regulador e disciplinador. Nesse discurso, ser gay ou lésbica diz respeito apenas à preferência de ter relações sexuais com pessoas do mesmo sexo. Contudo, foi questionado por Spargo, que defendeu que, com esse modelo, os bissexuais teriam uma identidade menos segura e grupos que definem sua sexualidade mais como atividades e prazeres do que através de preferências de gênero seriam excluídos.

A política praticada nos anos 1970 e 1980, unificadora e assimilacionista, passou a ser questionada internamente. Grupos de negros, latinos e jovens, sobretudo, passaram a questionar que as campanhas políticas eram norteadas por “valores brancos e de classe média”, sem abordar temas como relacionamento comprometido e monogâmico. Para algumas lésbicas, o movimento privilegiava os homens, tornando as suas reivindicações secundárias face às reivindicações dos homens gays. Bissexuais, transsexuais e sadomasoquistas continuavam marginalizados. A concepcão da identidade homossexual que estava sendo construída era a questão mais debatida.

Nos anos 1980, o surgimento da AIDS trouxe novos elementos ao jogo. O “câncer gay” resgatou a homofobia da sociedade e intensificou a discriminação, a intolerância e o desrespeito. Por um outro lado, surgiram redes de solidariedade, baseadas além da identidade. Os discursos, agora, concentram-se mais nas práticas sexuais, como o sexo seguro. Nesse contexto, aconteceu o que João Silvério Trevisan chama de “efeito colateral da epidemia sexualizada”: a deflagração de uma “epidemia de informação”. Para ele, a AIDS deixou evidente à sociedade a existência dos homossexuais.

No Brasil, os grupos ativistas, de gays e lésbicas, aumentaram. As possibilidades dividem-se em integrar partidos políticos ou continuar a luta de forma independente. Em um contexto global, os grupos multiplicam-se: alguns seguem ndo por reconhecimento e inclusão; outros, seguem desafiando as fronteiras de gênero e a dicotomia masculino/feminino, homem/mulher, heterossexual/homossexual.

A agenda teórica agora questionava as próprias categorias. A política homossexual estava em crise. Surgiram formulações teóricas pós-identitárias.

Uma teoria e uma política pós-identitária

Queer pode ser “estranho”, “talvez ridículo”, “excêntrico”, “raro”, “extraordinário”. É também uma forma pejorativa de se referir a homens e mulheres homossexuais, um insulto dom tom de deboche. Este termo é resgatado por uma vertente dos movimentos homossexuais e utilizado para caracterizar sua perspectiva de oposição e de contestação: para eles, queer é colocar-se contra a normalização, venha ela de onde vier. Nesta perspectiva, tem como alvo imediato a heteronormatividade da sociedade, mas também a normalização proposta pelo movimento homossexual dominante.

A política queer está ligada à produção de um grupo de intelectuais dos anos 90, que usa este termo para descrever suas perspectivas teóricas. Segundo Seidman, os teóricos queer são “favoráveis a uma estratégia descentradora ou desconstrutiva que escapa das proposições sociais e políticas programáticas positivas; imaginam o social como um texto a ser interpretado e criticado com o propósito de contestar os conhecimentos e as hierarquias sociais dominantes”.

A teoria queer pode ser vinculada ao pensamento ocidental contemporâneo que problematizou, ao longo do século XX, noções clássicas de sujeito, de identidade, de agência, de identificação. A construção discursiva das sexualidades, exposta por Foucault, é fundamental para a teoria queer, assim como a operação de desconstrução proposta por Jacques Derrida. Derrida defende que a lógica ocidental opera segundo binarismos, que elege algo como uma “ideia principal” e, a partir daí, determina um outro subordinado (superior x inferior). Segundo ele, esta lógica apenas poderia ser abalada a partir de um processo de desconstrução dos “pares”.

Os teóricos queer, a exemplo de Judith Butler, uma das mais destacadas teóricas, reafirma o caráter discursivo da sexualidade e produz novas concepções da ideia de sexo, sexualidade e gênero. Para ela, sociedades constroem normas que regulam o sexo dos sujeitos e essas normas regulatórias precisam ser constantemente repetidas e reiteradas para que tal materialização se concretize. Desta forma, as normas regulatórias do sexo têm caráter performativo e produz as normas dos gêneros sob a ótica heterossexual, produzindo corpos e sujeitos, fazendo com o que o sujeito não decida sobre o sexo que vai assumir.

Essas normas regulatórias, porém, também dão espaço para a produção de corpos que não se ajustam a elas, sujeitos socialmente indispensáveis, pois fornecem o “exterior” para os corpos que “materializam a norma”. Novamente: a teoria queer, não só Butler, volta sua crítica para a dicotomia heterossexual/homossexual, pois, para eles, isto preside os discursos homofóbicos e está presente, também, nos discursos favoráveis aos homossexuais, nunca escapando de uma referência à heterossexualidade como norma. Segundo os teóricos da teoria queer, é necessário empreender uma mudança que rompa com a lógica binária e seus efeitos (hierarquia, classificação, dominação e exclusão) e mudar o foco para a cultura, para as “estruturas linguísticas ou discursivas” e para seus “contextos institucionais”.

A teoria queer, segundo Seidman, “constitui-se menos numa questão de explicar a repressão ou a expressão de uma minoria homossexual do que numa análise da figura hetero/homossexual”.

Uma pedagogia e um currículo queer

A teoria queer permite pensar a ambigüidade, a multiplicidade e a fluidez das identidades sexuais e de gênero mas, além disso, também sugere novas formas de pensar a cultura, o conhecimento, o poder e a educação. Uma pedagogia queer não seria como programas multiculturais nos quais as as diferenças (de gênero, sexuais ou étnicas) são toleradas ou apreciadas como curiosidades. Uma pedagogia e um currículo queer estariam voltados para a produção das diferenças, questionando as relações do eu com o outro. No contexto em que a diferença deixaria de estar ausente, a polarização heterossexual/homossexual seria questionada, assim como a superioridade da heterossexualidade. Para a pedagogia queer, não bastaria denuniciar o submetimento dos homossexuais, mas desconstruir o processo pelo qual alguns sujeitos se tornam normalizados e outros marginalizados

A reviravolta provocada pela teoria queer transborda o terreno da sexualidade, perturba as formas convencionais de conhecimento. A pedagogia queer sugere o questionamento, a desnaturalização e a incerteza como estratégias férteis e criativas para pensar qualquer dimensão da existência. A dúvida seria algo estimulante.

Faltam, porém, para esta pedagogia, objetivos definidos, indicações precisas e sugestões adequadas para conduzir os estudantes. A teoria queer, embora perturbadora, é fascinante e faz pensar.


Resumo do capítulo 1 do livro “As donas no poder: mulher e política na Bahia”ng

A construção do pensamento feminista sobre o “não-poder” das mulheres

A autora Ana Alice Alcântara Costa inicia o seu livro com uma reflexão sobre o lugar de subordinação que, historicamente, as mulheres têm estado, exercendo apenas pequenas parcelas de poder, mas de maneira extremamente desigual, comparado com a supremacia masculina. Ela dedica o primeiro capítulo de seu livro, então, para analisar a opressão feminina.

1. O marxismo

A autora aponta Karl Marx e Frederic Engels como os responsáveis pela primeira tentativa de explicar a condição subalterna das mulheres na sociedade moderna, sem pautar a questão em causas biológicas e distanciando a condição de dependência das mulheres da sua natureza feminina. Para eles, esta condição é fruto de um processo histórico ligado à evolução da família. Engels afirma, na obra A origem da Família, da propriedade privada e do Estado, que o surgimento da propriedade privada e da possibilidade de formação de excedentes, junto à responsabilidade natural do homem pelos instrumentos de trabalho, tornou o homem o responsável pela acumulação das riquezas, excluindo a mulher deste papel. O homem tornou a mulher, responsável pelo trabalho doméstico, sua escrava, como forma de garantir a paternidade de seus filhos, possibilitando a transmissão de sua riqueza para seus descendentes. Desta forma, o marxismo clássico defende que a opressão feminina é fruto da propriedade privada e do papel de “instrumento de reprodução” adotado pela mulher dentro da estrutura familiar. A família burguesa patriarcal ratifica, através de gerações e gerações, a divisão da sociedade entre exploradores e explorados.

A concepcão desenvolvida por Engels e Marx foi profundamente criticada por antropólogos, historiadores, teóricas feministas e também por autores que utilizam a perspectiva marxista de análise social. Uma das críticas diz respeito à questão da propriedade privada como a responsável pela opressão feminina: as experiências socialistas ocorridas na Europa e na Ásia, que aboliam a propriedade privada, não causaram mudanças significativas na condição feminina. Antropólogos confirmaram a existência de sociedades primitivas, não baseadas em uma estrutura classista, em que as mulheres eram subordinadas à dominação masculina. Críticas também foram feitas à afirmação de Engels sobre a existência de um “matriarcado”, pois estudos posteriores feitos em comunidades primitivas não encontraram mulheres em posições de liderança. A divisão “natural” do trabalho na família proposta por Marx e Engels, como se o trabalho doméstico fosse algo inerente à condição feminina, também recebeu fortes críticas.

Marx defendia que a força de trabalho, no capitalismo, era uma mercadoria e que a procriação reproduzia esta força de trabalho. Ele não levou em conta que as mercadorias necessárias para a reprodução da forma de trabalho não se encontram prontas para consumo no mercado e que a mulher, através do trabalho doméstico, é responsável pelos alimentos, vestuário e lar; a mulher, através do trabalho não remunerado, possibilita maiores taxas de mais-valia e o barateamento da força de trabalho.

A capacidade de reproduzir a espécie sempre foi um dos fatores auxiliares para a opressão feminina. A teórica feminista Zillah Eisenstein afirma que “Marx não entendeu que a divisão sexual do trabalho dá lugar a um trabalho solitário para as mulheres” e diz que as mulheres, para Marx e Engels, continuariam responsáveis pelo trabalho doméstico mesmo após a transformação das relações de produtos. Por sua vez, a teórica feminista Batya Weinbaum afirma que Marx utilizava uma concepção patriarcal para analisar a economia política da sociedade capitalista. Além disso, Marx pecou, também, por não considerar o trabalho não-remunerado das mulheres nas famílias.

2. O patriarcado e o feminismo radical

A busca pelas respostas aos questionamentos relacionados à problemática feminina levou à teoria do patriarcado. Kate Millett foi a primeira teórica feminista que buscou uma explicação sobre a subordinação feminina nos conceitos de poder e dominação patriarcal desenvolvidos por Max Webber (“o domínio patriarcal é o tipo mais puro de dominação”). Para ela, que buscou referências também em Simone de Beauvoir, a relação estabelecida entre homens e mulheres é política, baseada na crença generalizada da supremacia biológica dos pobres sobre as mulheres. Millett afirma que o patriarcado é “uma instituição revestida de aspectos ideológicos e biológicos que têm a ver com a divisão social, os mitos, a religião, a educação e a economia”.

Para a teórica Shulamit Firestone, a função reprodutiva da mulher é a base para a sua opressão, sendo que apenas com a libertação da mulher do papel de reprodutora, possibilitado com o progresso das tecnologias de reprodução, o desequilíbrio entre homens e mulheres deixaria de acontecer. Este ponto de vista é adotado por grande parte das teóricas do patriarcado, mas outras vertentes, como a de Catherine Mackinson, tinham na sexualidade a resposta à dominação patriarcal, fundamentando-se mais na biologia do que na economia ou na história. As “feministas radicais”, como são conhecidas, sofreram uma série de críticas, sobretudo devido ao caráter biológico e não histórico de suas formulações. Um dos críticos, Gayle Rubin, alegava que não se deve usar “patriarcado” e sugere a utilização do termo “sistemas sexo/gênero” para tratar da relação de dominação. A autora deste livro, por sua vez, afirma que usar o termo “sistemas sexo/gênero” pode trazer sem seu bojo concepções biologistas, e isto também não é indicado.

Eisenstein critica Firestone por separar de maneira artifical as esferas econômicas e sexuais. Ela também critica a ideia de que o corpo da mulher define sua existência. Joan Scott, historiadora norte-americana, apresenta dois problemas para a utilização das formulações das teóricas do patriarcado: a) não explicam o que a desigualdade de gênero tem a ver com as outras desigualdades; b) esta teoria baseia-se apenas na variável única da diferença física. Apesar das críticas, esta teoria é muito importante para a construção do pensamento feminista, pois traz novos elementos para análise que possibilitam a reflexão sobre a opressão feminina e, posteriormente, auxiliam na construção do conceito de gênero.

3. O não “tão estranho” casamento entre feminismo e marxismo

As teóricas feministas, conscientes de que a teoria marxista não explicou a totalidade de questões relativas à posição feminina, passaram a dar continuidade a este pensamento, tratando da questão de produção e reprodução dentro de uma perspectiva do modo de produção, tendo como ponto de partida, geralmente, a questão do trabalho doméstico.

As feministas radicais assimilaram a ideia de que a subordinação é anterior ao capitalismo e que a mudança econômica para o modelo socialista não é estratégia suficiente para a eliminação da subordinação da mulher, que requer mais do que uma mudança no sistema econômico. Juliet Mitchell muito contribuiu para o feminismo socialista, a partir de uma visão crítica sobre a teoria marxista e a condição da mulher. Para elam as estruturas chaves da situação da mulher são: a produção, a reprodução, a sexualidade e a socialização das crianças.

O papel de reprodutora converteu a mulher em um complemento espiritual do papel do homem na produção. Para Mitchell, é na sexualidade que, historicamente, a mulher vem sendo mais oprimida: a mulher tem sido apropriada como objeto sexual, progenitor ou produtor, sendo sempre uma espécie de propriedade privada do homem na relação familiar. Ela afirma, também, que a família é um reforço na opressão à mulher, pois desenvolve três papéis distintos: reprodução, sexualidade e socialização das crianças.

Para as feministas socialistas, a opressão e a exploração da mulher eram resultado de esferas distintas do poder. A opressão estava baseada na organização social da sociedade (o partiarcado), enquanto que a exploração estava baseada na estrutura classista da soecidade (o capitalismo). Estas teóricas recuperam a teoria do patriarcado sem isolá-lo da estrutura econômica, como faziam as feministas radicais. A teórica Heleieth Safiotti conseguiu aproximar-se da essência entre patriarcado e capitalismo de maneira mais intensa, buscando explicar a desiguldade social da mulher.

3.1. Saffioti e a simbiose “patriarcado-racismo-capitalismo”

Saffioti exclui do termo “patriarcado” qualquer relação com a teoria weberiana. Para ela, não se pode entender o patriarcado ou o capitalismo como sistemas autonômos ou independentes: os dois devem ser examinados de forma integrada; classe e gênero são construídos ao longo da história. Esta autora critica a posição das feministas socialistas no que se refere à concepção do patriarcado capitalista, pois patriarcado e relações de classe não são, segundo ela, lados autonômos: patriarcado e capitalismo são faces distintas do mesmo modo de produzir e reproduzir a vida. A concepção de simbiose “patriarcado-racismo-capitalismo”, formulada por Saffioti adapta-se ao conceito de genêro discutido a seguir.

4. O conceito de “gênero” e as “relações de gênero”

Gênero” foi atribuído pelos homens em meados da década de 80, com base nas diferenças visíveis entre homens e mulheres, como forma de sintetizar as relações hierárquicas estabelecidas nos maiores diferentes níveis da vida social. O conceito de gênero surge como um conceito relacional enquanto categoria de análise. Retoma a ideia de que “não se nasce mulher, torna-se mulher”, já explorada por Simone de Beauvoir: uma mudança do corpo biológico ao corpo natural, sexo ao gênero, estruturas que definem o sexo feminino e o sexo masculino dentro de padrões sociais universais.

Para Joan Scott, para entender a condição de desigualdade da mulher é necessário tratar do sujeito individual, da organização social e de suas relações. Ela desenvolve um conceito de gênero que se estrutura basicamente através destas premissas: a) gênero como elemento constitutivo de diferenças percebidas entre os sexos; símbolos culturais; conceitos normativos; organizações sociais; identidade subjetiva. b) gênero como forma nova de significar as relações de poder.