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Resumo do capítulo 1 do livro “As Donas do Poder: mulheres e política na Bahia”

A autora busca no primeiro capitulo do livro analisar a construção do movimento feminista, a opressão feminina e o não-poder das mulheres. Para tentar entender o posicionamento feminino de subalternidade nas relações de poder.

O Marxismo

Primeiramente analisa a questão pelo viés Marxista, longe do biologismo, para Kalr Marx e Frederic Engels a condição de dependência da mulher nas sociedades modernas não é fruto da sua natureza feminina e sim o resultado de todo processo histórico ligado ao desenvolvimento das forças produtivas e da própria configuração da família diante dessas mudanças. Analisando essa questão com o surgimento da agricultura e pecuária como o primeiro passo para a propriedade privada dividiu naturalmente as “obrigações” dos homens e das mulheres nesse nova configuração. O homem detém os utensílios de trabalho na terra,detentor do poder e a mulher se reserva às tarefas domesticas, dessa forma a mulher foi excluída da acumulação dessa nova riqueza e depois perde mais ainda o poder quando perde o direito materno. O homem no desejo do poder torna a mulher uma escrava, como forma de garantir a paternidade dos filhos.

Dessa forma, o marxismo clássico analisa o a opressão feminina como fruto da propriedade privada e do papel que a mulher passou a configurar, de mera reprodutora dentro da família. E a família burguesa patriarcal é o mantenedor que perpetua essa configuração, por torna-se célula reprodutora da sociedade baseada na propriedade privada (clasista).

Porém essa consepção de Marx  e Engels apresenta uma série de problemas e foi muito criticada pelos Marxistas que utiliza uma perspectiva de análise social, além de antropólogos, historiadores e as próprias teorias feministas.

Uma das primeiras críticas foi exatamente na questão da propriedade privada ser um fator fundamental para a opressão feminina. Muitos antropólogos analisaram experiências socialistas e que também ocorriam as mesmas opressões e até mesmo em sociedades mais primitivas, das quais não haviam uma estrutura classista baseada na propriedade privada e nelas as mulheres também estavam submetidas  a uma estrutura de dominação masculina.

Outro ponto de questionamento na teoria de Engels é a questão do matriarcado como organização familiar de caráter universal, que na linha teórica dele surgiu antes do patriarcado e que em muitos estudos em comunidades primitivas nunca se encontrou esse tipo de configuração familiar. Mesmo na sociedade iroqueza,sociedade que se aproxima do matriarcado, estudada por Morgan, nem mesmo ali a mulher tinha um papel de liderança.

E o ponto fundamental dessas críticas é na perspectiva das teorias feministas em relação à divisão natural do trabalho. Apontam como uma divisão “natural”, como se o trabalho doméstico fosse algo inerente à condição feminina e não como uma divisão fruto de uma configuração das relações sociais de produção. Nesse momento o movimento feminista internacional questionava o posicionamento de Marx, quando ele fala do “indivíduo” da classe operária e não de um “indivíduo” em abstrato, como até então é tratado na teoria social. No próprio pensamento de Marx há uma divisão entre homem e mulher, e que favorece o posicionamento masculino.

A partir daí o movimento feminista chegou a conclusão de que as mulheres deveriam se organizar uma luta especial para conseguir os mesmos direitos e não como Engels dizia, que a luta pela igualdade entre os sexos seria uma luta socialista onde todos lutariam por direitos iguais juntos. A tomada de consciência de que o marxismo não era a solução para as problemáticas femininas levou muitas feministas a buscar novas linhas de pensamento para suprir sua carências, e a teoria do patriarcado foi um passo nessa busca.

O patriarcado e o feminismo radical

Kate Millet foi a primeira teórica feminista que buscou, nos conceitos de poder e dominação patriarcal desenvolvidos por Max Weber, a base para uma explicação da subordinação feminina, mas ainda achava insuficiente para uma análise política social. Ela também retoma a Simone de Beauvoir, que buscou ampliar as análises de Marx e Engels, incorporando as dimensões psicológicas e culturais.

Usou como Weber como referência quando analisou que a relação que se estabelece entre homens e mulheres é uma relação política, e o domínio do homem sobre a mulher se baseia na crença generalizada de sua supremacia biológica sobre esta. Para Millet, o patriarcado é uma instituição construída na base da força e da violência sexual exercida contra as mulheres, na qual a violação é seu mecanismo principal de domínio.Para ela o patriarcado é uma instituição revestida de aspectos ideológicos e biológicos que tem haver com a divisão social, os mitos, as religiões, a educação e a economia.

Outra importante teórica do patriarcado, Shulamith Firestone, ressalta a função reprodutiva da mulher e a função da família biológica, a base de sua opressão. Para ela a o desequilíbrio sexual do poder está fundamentado biologicamente e somente com a liberação da mulher das cadeias da maternidade, através dos progressos na tecnologia da reprodução, deixaria de existir esse desequilíbrio.

As teorias do patriarcado são basicamente fundamentas nessa perspectiva de Firestone, mas podemos encontrar outras vertentes, por exemplo das “feministas radicais” como costumam ser identificadas, que definem o patriarcado como um sistema sexual do poder, como a organização hierárquica masculina que se perpetua através do matrimônio, da família e da divisão sexual do trabalho.Esse sistema de sexual de poder está fundamentado mais na biologia que na economia ou na história.Essa corrente de análise da condição feminina tenta  buscar as origens da opressão específica no caráter específico que tem as relações da mulher com a produção, que as fazem produzir gratuitamente e sem receber em troca mais do que sua subsistência.

Apesar da contribuição realizada pelas feministas radicais na construção da teoria do patriarcado, seus posicionamentos sofreram uma série de críticas, em especial por seu caráter biologista e não histórico.

 

O não “tão estranho” casamento entre feminismo e marxismo

Como a teoria marxista era incapaz de explicar a totalidade de implicações que dizem respeito à condição feminina nas sociedades modernas, as teóricas feministas engajadas nessa corrente tentavam preencher os vazios deixados por Marx e Engels. Essas teóricas questionavam o trabalho domestico como ponto de partida para a análise. E mesmo as feministas radicais, ainda utilizavam o patriarcado para suas teorias, mesmo diante das críticas sofridas por elas.

As feministas socialistas analisavam a subordinação da mulher como algo anterior ao capitalismo e que a liberação da mulher requer algo mais que uma mudança no sistema econômico. Nessa linha teórica Juliet Mitchell merece um destaque com a sua visão Crítica da teoria marxista clássica sobre a condição da mulher. Onde ela afirma que o papel de reprodutora converteu a mulher, no capitalismo, em complemento espiritual do papel do homem na produção, dessa forma a mulher foi excluída da produção social. Dessa forma analisa que no capitalismo, onde o trabalho constitui uma alienação na elaboração de um produto social que é confiscado pelo capital, a reprodução adquire uma aspecto também de exploração.

Para Mitchell, é na sexualidade que tradicionalmente a mulher tem sido mais oprimida, como objeto sexual progenitor e reprodutor. E a família é um reforço para essa opressão. E para ela a condição para a libertação da mulher de sua posição de opressão é uma luta específica contra o patriarcado.

Para as feministas socialistas, a opressão e a exploração eram resultado de esferas distintas do poder. A opressão estava baseada na organização sexual da sociedade (o patriarcado), enquanto que a exploração estava baseada na estrutura classista da sociedade. As duas estruturas (patriarcado e capitalismo) convivem, assim, na sociedade, através da divisão sexual do trabalho na família e na produção social, em um processo de dependência mútua. Nesse sentido, as feministas socialistas recuperam a teoria do patriarcado sem isolá-lo da estrutura econômica, como faziam as feministas radicais.

Saffioti e a simbiose “patriarcado-racismo-capitalismo”

Saffioti ressalta que não se pode entender o patriarcado e o capitalismo como sistemas autônomos ou independentes, os dois são duas face do mesmo sistema produtivo e devem ser examinadas de forma integrada. Salientando dessa forma que a classe e gênero são construídos simultaneamente ao longo da história e por isso seria impossível separá-los, apenas para fins analíticos.

Nessa mesma linha de raciocínio Saffioti critica a posição das feministas socialistas, no que se refere ao patriarcado capitalista. Isso implica considerar que o patriarcado e capitalismo como faces distintas do mesmo modo de produzir e reproduzir a vida.

O conceito de “gênero”e as “relações de gênero”

Ao longo do texto percebemos a tentativa teórica de entender as relações de poder nas sociedades modernas, analisando estruturas dessas sociedades, como o patriarcado, o capitalismo, as relações políticas, sociais, raciais, para entender as relações de desigualdade social das mulheres. Ao longo dessas analises essas teóricas buscam também um conceito que pudesse sintetizar essas relações de desigualdade que pudesse abranger as causas que se dá nessas relações desiguais.

Millet usou, pela primeira vez, o conceito de gênero na teoria feminista em 1969, mas somente na segunda metade da década de 80 incorporou-se esse conceito à analise feminista. Esse conceito busca “explicar” as relações dos sexos (homem e mulher) em relação às suas redes sociais, relembrando a Simone de Beauvoir que afirmou que “não se nasce mulher, se torna mulher”.

Esse conceito foi muito mal utilizado pelas feministas com tradições marxistas durante algum tempo. Mas ele não substitui a perspectiva da simbiose patriarcado-racismo-capitalismo. Esse conceito será utilizado somente como instrumento de análise da subordinação feminina, e não como um instrumento para escondê-la.