Arquivo do autor:Pedro Dell'Orto

Sobre Pedro Dell'Orto

Pedro Dell'Orto é estudante de Produção em Comunicação e Cultura da Universidade Federal da Bahia. Com parte de sua formação na Argentina, desenvolve seus estudos na área de produção audiovisual através de suportes digitais e possui experiência tanto em produção televisiva (Soterópolis - TVE Bahia) como em curta-metragem de ficção cinematográfica (2011: Solene Simpatia; 2010: Rita Lina)

Resumo do texto Nuevas tecnologias y género: la segunda brecha digital y las mujeres (Cecilia Castaño)

Pode parecer que, com o aumento de usuários de computador e internet, diminuiu a divisão entre homens e mulheres, no entanto, a segunda divisão, relativa aos usos e habilidades parece difícil de resolver.

A difusão tecnológica que ocorreu com a televisão e o telefone móvel, por exemplo, sugerem que estes processos de difusão eliminam as diferenças econômicas e sociais. Porém, nem todas as nações, nem todos os cidadãos incorporam as inovações no mesmo ritmo, alguns, inclusive, nem chegam a incorporar.

Mesmo que o individuo se torne usuário não significa que este seja um usuário avançado. As empresas necessitam incorporar as inovações tecnológicas. Como consequência, provoca um processo de substituição de empregos: enquanto se destroem alguns, criam-se outros.

Rogers diferencia os indivíduos em cinco grupos:

1 – Inovadores

2 – Early Adopters – Lideres sociais com alto nível intelectual

3 – Early Majority – Prudentes e com grande rede de contato

4 – Late Majority – Baixo status socioeconômico

5 – Retardados – Tradicionais ou isoladas em seu sistema social

Roger deduz que para que o acesso seja efetivo, a possibilidade de acesso deve ser somada ao conhecimento, interesse, assim como a utilidade e aplicabilidade desta ferramenta para objetivos pessoais.

O estudo da Divisão Digital deve ir além do acesso à internet e analisar os usos e sua intensidade.

Alguns autores consideram a tecnologia o caminho potencial de exclusão social, pois a ausência de tecnologia constitui uma desvantagem para certos grupos sociais. Outros insistem que a existência de divisões digitais constitui uma barreira para o desenvolvimento de uma “Sociedade de Informação Equitativa”.

A barreira mais difícil de derrubar não é a do acesso (1ª divisão), mas a do uso (2ª divisão).

Rogers define a divisão digital como “a divisão que existe entre indivíduos que tiram proveito da internet e aqueles outros que estão em desvantagem relativa a respeito da internet”.

Divisão do Conhecimento: os seguimentos com nível socioeconômico mais elevado tendem a apropriar-se a uma velocidade mais rápida que os indivíduos de nível mais baixo. Aumentando, assim, a divisão em lugar de reduzir. Acesso não é o suficiente. É necessário também possuir determinadas habilidades para manusear um computador (complexo artefato multitarefa).

O que faz dos computadores “radicalmente diferentes, sem dúvidas, é que é uma ferramenta muito poderosa para trabalhar e aprender, e que requerem uma certa capacidade de memoria e de pensamento abstrato, que constituem a base das habilidades de aprendizagem”.

A internet é uma inovação caracterizada por um alto grau de vantagem relativa. Pensamos que está ao alcance de todos, mas, na verdade, requer certas capacidades para buscar informações, processa-las e utiliza-las para alcançar determinados objetivos.

A segunda Divisão está relacionada com a divisão do conhecimento, com as “habilidades digitais”. Gilster propõe o termo “Digital Literacy” (Alfabetização digital) para definir a capacidade de adaptação às novas “Tecnologias da Informação e Comunicação” (TIC). Surpreende a pequena quantidade de pessoas que possuem estes conhecimentos, incluindo jovens e licenciados universitários.

Os benefícios da Digital Literacy são evidentes e implica em adquirir conhecimentos de busca, classificação, avaliação e apresentação da informação.

As diferenças entre homens e mulheres se dão em todas as sociedades atuais. Os homens são usuários mais regulares de internet que as mulheres em todos os países e grupos de idade, além de muito mais homens que mulheres ocuparem empregos de informática na U.E.

Em todas as idades, a proporção de mulheres com níveis altos de habilidade em informática e navegadores é menor que de homens. A proporção de mulheres que trabalham profissionalmente com informática é muito pequena e não vem melhorando. A preocupação é que estas diferenças de gênero nas profissões de informática não parecem que tende a reduzir no futuro.

Três tipos de fatores que afetam o uso do computador e da internet: Capital humano; Contexto familiar; Contexto Social.

Estatísticas mostram que existe uma relação positiva entre o capital humano de uma pessoa e seu uso privado do computador e da internet.

As desigualdades de gênero no mercado de trabalho se manifestam de várias formas: o emprego feminino se concentra em atividades menos relevantes do ponto de vista da informatização e do acesso à internet, além de uma presença muito escassa das mulheres em profissões de alta tecnologia e de internet.

No contexto familiar, afeta, além da renda familiar, a presença de menores de idade que são um incentivo para dispor de um computador e acesso a internet.

Parece que há razão para ser otimista, porque em todos os países aumenta o numero de usuárias.

As novas tecnologias podem contribuir para melhorar a posição das mulheres no mercado de trabalho. Teletrabalho, a teleoperação, parecem alternativas apropriadas para mulheres que necessitam combinar o emprego com as responsabilidades familiares.

É um erro, portanto, confundir o aumento do número de usuárias com a desaparição da divisão digital. O nível de estudo não reduz o tamanho e a intensidade desta divisão de gênero, mas, inclusive, a acentua.

As mulheres estariam prisioneiras de uma certa “tecnofobia”, devido a hábitos patriarcais que persistem na família, na escola e nos meios de comunicação que educam os meninos a explorar e conquistar o mundo e as mulheres para cuidar dos demais. A educação cientifica se considera mais necessária para os homens e isto cria barreiras para as mulheres, pois há tratamento diferenciado mesmo em sala de aula.

É essencial a produção e compilação urgente de dados e informação qualificada que permita aprofundar e abordar solidamente o tema da desigualdade digital. Sem dados não há visibilidade e sem visibilidade é impossível elaborar políticas para superar a divisão digital de gênero.

O objetivo é fazer possível que utilizem as tecnologias ao mesmo nível e com a mesma destreza que os homens e que ocupem postos similares a eles.


Ciberfeminismo: velhas-novas práticas do feminismo em redes eletrônicas

No contexto da discussão sobre as identidades, e em particular no campo da ação dos novos movimentos sociais, o campo comunicacional emerge como espaço de luta política, decisivo e não apenas complementar de outras instâncias em que se encerra a dinâmica histórica. As novas tecnologias de comunicação possibilitam um redimensionamento dos modos de organização de inúmeros movimentos sociais como, por exemplo, o feminismo, que nesse contexto é atualizado por uma nova prática denominada Ciberfeminismo. O Ciberfeminismo desde seu início atualiza suas relações históricas com outros feminismos. A partir dessa premissa, o movimento mapeia as possibilidades de novos discursos feministas em redes de comunicação, interrogando como esse movimento se dá, e mais especificamente, como o uso das novas tecnologias de comunicação constrói essas novas histórias feministas.

O Ciberfeminismo teve origem em inúmeras redes eletrônicas, anteriores à World Wide Web (WWW), como por exemplo, as BBS e Intranets universitárias da Austrália e Alemanha. Outro fator responsável pela origem do Ciberfeminismo é a publicação do Manifesto Ciborgue: ciência, tecnologia e feminismo-socialista no final do século XX em 1984, escrito pela biológa Donna Haraway. Donna Haraway propõe um rompimento com o marxismo, o feminismo radical e outros movimentos sociais que fracassaram ao operar com categorias como classe, raça e gênero. Em relação ao movimento feminista, a crítica de Haraway diz respeito ao modo como ele vem operando com a categoria “mulher” de uma forma naturalizada. Sendo assim, seria necessário romper com essa política da identidade e substituí-la pelas diferenças e por uma coalizão política baseada na afinidade e não numa identificação concebida como “natural”. O ciborgue seria, assim, o modelo, o mito fundante dessa nova política de identificação construída a partir da afinidade, longe da lógica da apropriação de uma única identidade. A partir disso iniciam-se as discussões e análises do processo de construção desses novos modos de discurso em redes eletrônicas e suas relações com os movimentos de identidade.

No caso Ciberfeminismo, uma das teses dessa vertente é que o entendimento do espaço da mulher deve ser também entendido no contexto das novas tecnologias, mais especificamente o da Internet. Uma dos problemas nesse processo, proposto pelas australianas Hawthorne e Klein (1999)¹ e pela americana Faith Wilding (1997)², é a de que o Ciberfeminismo ao tentar se alinhar radicalmente às teorias de Haraway, na tentativa de um rompimento com o movimento feminista anterior, acabou por obliterar sua relação com o passado político do movimento e sua relação com os diferentes contextos culturais femininos. Mas ainda que o Ciberfeminismo não tenha as mesmas características políticas de seus antecessores, suas reverberações podem ser percebidas em produções artísticas e na ação ativista de inúmeros grupos e artistas.

São pioneiras as atuações de coletivos artísticos e ativistas como as Old Boys Network (1997-2001), e algumas artistas como Coco Fusco(2001-2003) e Heide Kumao(2002-2008), que pelos seus trabalhos manifestam um discurso alinhado as teorias ciberfeministas dos anos 1990, e que foram influenciadas, indiretamente ou diretamente, pelo movimento. A ação dessas artistas, bem como suas experiências, deve ser tomada como parte do movimento ciberfeminista, que ocorre em nível global e desterritorializado devido ao uso das novas tecnologias de comunicação em rede. No Brasil, também contamos com o desenvolvimento, cada vez mais crescente, de trabalhos que problematizam a questão da mulher e da tecnologia como, por exemplo, os centros de fomento à relação entre gênero e tecnologia como o CEMINA, bem como a série de trabalhos da artista Helga Stein, Andro-Hertz (2004), e do BR.ADA que recentemente surge como uma tentativa de mapear as relações de gênero , tecnologia e arte dentro do panorama latino-americano.

A co-habitação entre as tecnologias e os movimentos sociais é um fato que marca a contemporaneidade, como por exemplo, o hacktivismo, as rádios comunitárias, dentre outras manifestações. De fato, a tecnologia é apenas uma perspectiva para se olhar para os movimentos sociais e, ao fazermos o uso desta lente, devemos pensar em que medida as novas tecnologias redimensionam esses movimentos. No caso do feminismo, e mais especificamente do Ciberfeminismo, é preciso termos em conta as diferentes camadas e diferentes temporalidades que as tecnologias utilizadas por esses movimentos perpassam.

Apesar de existirem inúmeras definições para o Ciberfeminismo, o entendemos como uma prática feminista em rede, que tem por intuito, tanto politicamente, quanto esteticamente, a construção de novas ordens e desmontagem de velhos mitos da sociedade através do uso da tecnologia (MARTÍNEZ COLLADO e NAVARRETE, 2006)³. A priori, o Ciberfeminismo não é uno, desde o seu surgimento ele se apresentou de diversas formas e grupos, mas identificamos em seu processo algo que o diferencia de outros feminismos anteriores. Enquanto os movimentos feministas dos anos 1960 e 1970 se multiplicaram pelo resultado de sucessivas cisões internas, resultando em grupos que buscavam ações identitárias afins, diferentes grupos ciberfeministas utilizaram a Internet para se reunirem, trocarem experiências e discutirem as relações entre gênero e tecnologia.

Dessa forma, este movimento, mesmo com seus variados grupos identitários, buscou uma aproximação para trocas e ações de experiências de diferentes fundos culturais em conjunto. Muitos dos grupos ciberfeministas utilizam as tecnologias de comunicação, como a Internet, não só para se organizarem em rede, mas também para construírem novos discursos que problematizam as questões de gênero através de trabalhos que vão desde a produção audiovisual e experiências com midiarte até as experimentações artístico-ativistas na Internet. Em suma, o Ciberfeminismo surgiu em uma época onde são cada vez mais polifônicas as narrativas, as identidades e até mesmo as próprias tecnologias. Porém, as potencialidades como movimento social trazidas pelo ciberfeminismo ainda são incipientes no âmbito brasileiro. O significado da comunicação e da informação, e consequentemente, sua globalização, criaram novos espaços de ação coletiva que devem ser, cada vez mais investigados, questionados e publicizados por mulheres, para mulheres, em especial , as brasileiras!

Fonte: http://br4d4.wordpress.com/2010/03/01/ciberfeminismo-velhas-novas-praticas-do-feminismo-em-redes-eletronicas/


Resumo do capítulo 1 do livro “As Donas do Poder: mulheres e política na Bahia”

1- A construção do pensamento feminista sobre o “não poder” das Mulheres

“O poder é a essência do cativeiro da mulher e dos cativeiros das mulheres” (Marcela Lagarde)

Neste primeiro capitulo, a autora apresenta a relação histórica entre Poder e Mulher, sujeito do feminismo. Aponta que “as mulheres tem estado do outro lado do exercício do poder, do lado da condição de subalternidade” e que reproduzem este poder concentrado e controlado pelos Homens.

1. O Marxismo

Karl Marx e Frederic Engels foram os primeiros a sistematizar uma analise da condição subalterna da mulher nas sociedades modernas, deixando de lado explicações biológicas, e partindo para “todo o processo histórico ligado ao desenvolvimento das forças produtivas e, como conseqüência deste, da própria família”.

Engels propõe a idéia de uma Divisão natural do trabalho: enquanto o homem, responsável pela busca de alimentos, através da pecuária e agricultura, criou a possibilidade de formar excedentes e, conseqüentemente, o surgimento da propriedade privada, a mulher se depara com o dever familiar de ser responsável pelo trabalho domestico e é excluída da acumulação desta nova riqueza.

“O homem desejoso de transmitir sua riqueza a seus descendentes, imporá ser domínio sobre a mulher, tornando-a escrava, como uma forma de garantir à paternidade dos filhos” (p. 20).

Ou seja, para o Marxismo clássico, a opressão feminina é fruto da propriedade privada. Essa analise apresenta diversos problemas:

1. Colocar a questão da propriedade privada como a responsável pela opressão feminina.

2. A existência de um matriarcado como forma de organização familiar de caráter universal e sempre anterior ao patriarcado.

3. A Divisão natural do trabalho propõe uma divisão “natural” e não resultado das relações sociais de produção.

Marx enxerga na procriação a perpetuação da força de trabalho. Já que o possuidor da força de trabalho é mortal, “a soma dos meios de vida necessários para a produção da força de trabalho inclui, portanto, os meios de vida dos substitutos, isto é, dos filhos dos operários” (Marx).

A reprodução da força de trabalho através da procriação implica o cuidado em socialização dos futuros operários. Trabalho realizado pela mulher de maneira privada, na esfera domestica, isto é, o trabalho doméstico:

a) conservação e transformação de alimentos, roupas (meios de vida necessários).

c) o trabalho doméstico não remunerado barateia a força de trabalho e, conseqüentemente, a mais-valia.

A divisão do trabalho por sexo e idade cria a base para a opressão da mulher ao impor a dependência econômica dos homens e a divisão do trabalho (por idade) cria base material para o patriarcado ao impor a dependência econômica dos pais. Ambas dependências são tanto genéticas como biológicas. (Batya Weinbaum)

O marxismo não deu conta dos questionamentos da problemática feminina “por não levar em conta as relações nas quais as mulheres estão envolvidas como reprodutoras da espécie e a ‘estruturação hierárquica da sociedade'” (p.25). A liberação feminina requer mais que uma mudança nas relações de produção, pois, mesmo em uma sociedade comunista, a vida ainda estaria estruturada segundo uma divisão sexual do trabalho.

2. O patriarcado e o Feminismo radical

Simone Beauvoir, em o Segundo Sexo, incorpora as dimensões psicológica e cultural às analises de Marx e Engels.

“Nenhuma mulher nasce mulher, se torna mulher” (Simone Beauvoir), ou seja, a tradição, os costumes, a cultura convertem e constroem o sujeito mulher.

Millet defende que “a relação entre homens e mulheres é uma relação política e o domínio do homem sobre a mulher se baseia na crença generalizada de sua supremacia biológica sobre esta” (p. 29). Para Millet, o patriarcado é “uma instituição revestida de aspectos ideológicos e biológicos que tem a ver com a divisão social, os mitos, a religião, a educação e a economia”.

Firestone vê na função reprodutiva da mulher (e, em função disso, a família biológica) a base de sua opressão. Para ela “o desequilíbrio sexual do poder está fundamentado biologicamente”.

Para Mackinnon, “assim como a apropriação organizada do trabalho de alguns em beneficio de outros define uma classe (trabalhadores), a expropriação organizada da sexualidade de uns para o uso de outros define o sexo para as mulheres. A heterossexualidade é sua estrutura: gênero e família são suas formas cristalizadas, papeis dos sexos são suas qualidades generalizadas para a pessoa social; a reprodução é uma consequência; o controle é seu problema”.

Os posicionamentos das feministas radicais sofreram uma serie de criticas, em especial por seu caráter biologista e não histórico.

Rubin critica o termo patriarcado, pois defende que este obscurece as outras distinções presentes na sociedade. Propõe o termo “sistemas sexo/gênero”.

Eisenstein critica o conceito de “classe sexual” de Firestone e afirma que este conceito “separa de maneira artificial as esferas sexual e econômica substituindo o capitalismo pelo patriarcado como sistema opressor”. Eisenstein critica também a idéia de que o corpo da mulher define sua existência, uma vez que a sexualidade não pode explicar toda a complexidade das relações de poder na nossa sociedade.

Joan Scott aponta que as teorias do patriarcado baseiam a analise na diferença física: “Toda diferença física tem um caráter universal e imutável. Uma teoria que se baseia na variável única da diferença é problemática para os (as) historiadores (as)”.

3. O não “tão estranho” casamento entre feminismo e marxismo

Para muitas, a questão do trabalho doméstico foi o ponto de partida. As feministas socialistas assimilaram a idéia de que a subordinação da mulher é anterior ao capitalismo.

“A liberação da mulher requer algo mais que uma mudança no sistema econômico” (Weinbaum)

Juliet Mitchell postula que “as estruturas-chaves da situação da mulher são: a produção, a reprodução, a sexualidade e a socialização das crianças que, combinadas, produzem a unidade complexa de sua opressão”.

A autora defende ainda que “as mulheres devem se organizar, enquanto mulheres, para mudar a ideologia fundamental da sociedade humana” e completa ” as mulheres podem ser as pontas de lança da mudança ideológica geral, da mesma forma que a classe operaria é o agente da superação do modo de produção capitalista”.

Para as feministas socialistas, a opressão e a exploração eram resultados de esferas distintas de poder. No entanto, as duas estruturas (patriarcado e capitalismo) convivem na sociedade através da divisão sexual do trabalho na família em um processo de dependência mutua.

O patriarcado está também determinado pelas necessidades do capital na medida em que proporciona a organização hierárquica da sociedade necessária para o controle politico.

Combes e Haicault concluem que no seio de toda sociedade coexiste uma produção social de bens e uma produção social de seres humanos (reprodução). “Com efeito, a designação prioritária das mulheres para a reprodução sempre foi acompanhada de sua exclusão no campo sociopolítico” (COMBES e HAICAULT).

3.1 Saffoti e a simbiose “patriarcado-racismo-capitalismo”

Simbiose – associação de organismos

Para Saffoti, o conceito de patriarcado pode-se entender “como um dos esquemas de dominação-exploração componentes de uma simbiose da qual participam também o modo de produção e o racismo”.

Para a autora, o patriarcado e o capitalismo não são sistemas autônomos ou independentes. Ao contrario, são formas mutuamente constitutivas de dominação: classe e gênero são construídos simultaneamente ao longo da historia.

“O sistema de classes não se realiza exclusivamente no campo econômico, pois se trata de uma realidade multifacética, onde têm lugar outros tipos de dominação: social, cultural, política, ideológica, além da econômica”. De outra parte, o patriarcado não pode ser reduzido a um sistema de dominação política, pois em seu seio fluem os demais tipos de dominação, inclusive o econômico.

4. O conceito de gênero e as relações de gênero

Com base na diferença visível do seu sexo, os homens atribuíram gênero ao mundo visível que os rodeava.

“Na certeza visual de que seus corpos portavam uma diferenciação significativa, reguladora de uma precária organização social, foi que primitivamente a espécie humana ordenou, classificou, nomeou o caos aparente do universo” (OLIVEIRA N.)

Neusa Oliveira conclui que “ao idealizar a imagem feminina e masculina, a cultura acrescenta a seus corpos signos, símbolos, sinais, que tornam extensão anatômica e são somados ao sexo do individuo a partir do seu nascimento. A adição simbólica garante um consenso social sobre a imagem ideal da ‘performance’ corporal masculina e feminina”. Marta Lamas acrescenta que “esta simbolização cultural da diferença anatômica toma forma no conjunto de práticas, idéias, discursos, e representações sociais que dão atribuições à conduta objetiva e subjetiva das pessoas em função do seu sexo”.

A oposição binária homem/mulher é a chave na trama dos processos de significação. “A diferença sexual nos estrutura psiquicamente e a simbolização cultural da mesma diferença, o gênero, não só marca os sexos, mas também marca a percepção de todo os demais: social, o político, o religioso, o cotidiano” (LAMAS M.).

Joan Scott aponta a necessidade de “substituir a noção de que o poder social é unificado, coerente e centralizado por alguma coisa que esteja próxima do conceito foucaultiano de poder, entendido como constelações dispersas de relações desiguais constituídas pelos discursos nos ‘campos de força”.