Resumo do capítulo 1 do livro “As Donas do Poder: mulheres e política na Bahia”

1- A construção do pensamento feminista sobre o “não poder” das Mulheres

“O poder é a essência do cativeiro da mulher e dos cativeiros das mulheres” (Marcela Lagarde)

Neste primeiro capitulo, a autora apresenta a relação histórica entre Poder e Mulher, sujeito do feminismo. Aponta que “as mulheres tem estado do outro lado do exercício do poder, do lado da condição de subalternidade” e que reproduzem este poder concentrado e controlado pelos Homens.

1. O Marxismo

Karl Marx e Frederic Engels foram os primeiros a sistematizar uma analise da condição subalterna da mulher nas sociedades modernas, deixando de lado explicações biológicas, e partindo para “todo o processo histórico ligado ao desenvolvimento das forças produtivas e, como conseqüência deste, da própria família”.

Engels propõe a idéia de uma Divisão natural do trabalho: enquanto o homem, responsável pela busca de alimentos, através da pecuária e agricultura, criou a possibilidade de formar excedentes e, conseqüentemente, o surgimento da propriedade privada, a mulher se depara com o dever familiar de ser responsável pelo trabalho domestico e é excluída da acumulação desta nova riqueza.

“O homem desejoso de transmitir sua riqueza a seus descendentes, imporá ser domínio sobre a mulher, tornando-a escrava, como uma forma de garantir à paternidade dos filhos” (p. 20).

Ou seja, para o Marxismo clássico, a opressão feminina é fruto da propriedade privada. Essa analise apresenta diversos problemas:

1. Colocar a questão da propriedade privada como a responsável pela opressão feminina.

2. A existência de um matriarcado como forma de organização familiar de caráter universal e sempre anterior ao patriarcado.

3. A Divisão natural do trabalho propõe uma divisão “natural” e não resultado das relações sociais de produção.

Marx enxerga na procriação a perpetuação da força de trabalho. Já que o possuidor da força de trabalho é mortal, “a soma dos meios de vida necessários para a produção da força de trabalho inclui, portanto, os meios de vida dos substitutos, isto é, dos filhos dos operários” (Marx).

A reprodução da força de trabalho através da procriação implica o cuidado em socialização dos futuros operários. Trabalho realizado pela mulher de maneira privada, na esfera domestica, isto é, o trabalho doméstico:

a) conservação e transformação de alimentos, roupas (meios de vida necessários).

c) o trabalho doméstico não remunerado barateia a força de trabalho e, conseqüentemente, a mais-valia.

A divisão do trabalho por sexo e idade cria a base para a opressão da mulher ao impor a dependência econômica dos homens e a divisão do trabalho (por idade) cria base material para o patriarcado ao impor a dependência econômica dos pais. Ambas dependências são tanto genéticas como biológicas. (Batya Weinbaum)

O marxismo não deu conta dos questionamentos da problemática feminina “por não levar em conta as relações nas quais as mulheres estão envolvidas como reprodutoras da espécie e a ‘estruturação hierárquica da sociedade'” (p.25). A liberação feminina requer mais que uma mudança nas relações de produção, pois, mesmo em uma sociedade comunista, a vida ainda estaria estruturada segundo uma divisão sexual do trabalho.

2. O patriarcado e o Feminismo radical

Simone Beauvoir, em o Segundo Sexo, incorpora as dimensões psicológica e cultural às analises de Marx e Engels.

“Nenhuma mulher nasce mulher, se torna mulher” (Simone Beauvoir), ou seja, a tradição, os costumes, a cultura convertem e constroem o sujeito mulher.

Millet defende que “a relação entre homens e mulheres é uma relação política e o domínio do homem sobre a mulher se baseia na crença generalizada de sua supremacia biológica sobre esta” (p. 29). Para Millet, o patriarcado é “uma instituição revestida de aspectos ideológicos e biológicos que tem a ver com a divisão social, os mitos, a religião, a educação e a economia”.

Firestone vê na função reprodutiva da mulher (e, em função disso, a família biológica) a base de sua opressão. Para ela “o desequilíbrio sexual do poder está fundamentado biologicamente”.

Para Mackinnon, “assim como a apropriação organizada do trabalho de alguns em beneficio de outros define uma classe (trabalhadores), a expropriação organizada da sexualidade de uns para o uso de outros define o sexo para as mulheres. A heterossexualidade é sua estrutura: gênero e família são suas formas cristalizadas, papeis dos sexos são suas qualidades generalizadas para a pessoa social; a reprodução é uma consequência; o controle é seu problema”.

Os posicionamentos das feministas radicais sofreram uma serie de criticas, em especial por seu caráter biologista e não histórico.

Rubin critica o termo patriarcado, pois defende que este obscurece as outras distinções presentes na sociedade. Propõe o termo “sistemas sexo/gênero”.

Eisenstein critica o conceito de “classe sexual” de Firestone e afirma que este conceito “separa de maneira artificial as esferas sexual e econômica substituindo o capitalismo pelo patriarcado como sistema opressor”. Eisenstein critica também a idéia de que o corpo da mulher define sua existência, uma vez que a sexualidade não pode explicar toda a complexidade das relações de poder na nossa sociedade.

Joan Scott aponta que as teorias do patriarcado baseiam a analise na diferença física: “Toda diferença física tem um caráter universal e imutável. Uma teoria que se baseia na variável única da diferença é problemática para os (as) historiadores (as)”.

3. O não “tão estranho” casamento entre feminismo e marxismo

Para muitas, a questão do trabalho doméstico foi o ponto de partida. As feministas socialistas assimilaram a idéia de que a subordinação da mulher é anterior ao capitalismo.

“A liberação da mulher requer algo mais que uma mudança no sistema econômico” (Weinbaum)

Juliet Mitchell postula que “as estruturas-chaves da situação da mulher são: a produção, a reprodução, a sexualidade e a socialização das crianças que, combinadas, produzem a unidade complexa de sua opressão”.

A autora defende ainda que “as mulheres devem se organizar, enquanto mulheres, para mudar a ideologia fundamental da sociedade humana” e completa ” as mulheres podem ser as pontas de lança da mudança ideológica geral, da mesma forma que a classe operaria é o agente da superação do modo de produção capitalista”.

Para as feministas socialistas, a opressão e a exploração eram resultados de esferas distintas de poder. No entanto, as duas estruturas (patriarcado e capitalismo) convivem na sociedade através da divisão sexual do trabalho na família em um processo de dependência mutua.

O patriarcado está também determinado pelas necessidades do capital na medida em que proporciona a organização hierárquica da sociedade necessária para o controle politico.

Combes e Haicault concluem que no seio de toda sociedade coexiste uma produção social de bens e uma produção social de seres humanos (reprodução). “Com efeito, a designação prioritária das mulheres para a reprodução sempre foi acompanhada de sua exclusão no campo sociopolítico” (COMBES e HAICAULT).

3.1 Saffoti e a simbiose “patriarcado-racismo-capitalismo”

Simbiose – associação de organismos

Para Saffoti, o conceito de patriarcado pode-se entender “como um dos esquemas de dominação-exploração componentes de uma simbiose da qual participam também o modo de produção e o racismo”.

Para a autora, o patriarcado e o capitalismo não são sistemas autônomos ou independentes. Ao contrario, são formas mutuamente constitutivas de dominação: classe e gênero são construídos simultaneamente ao longo da historia.

“O sistema de classes não se realiza exclusivamente no campo econômico, pois se trata de uma realidade multifacética, onde têm lugar outros tipos de dominação: social, cultural, política, ideológica, além da econômica”. De outra parte, o patriarcado não pode ser reduzido a um sistema de dominação política, pois em seu seio fluem os demais tipos de dominação, inclusive o econômico.

4. O conceito de gênero e as relações de gênero

Com base na diferença visível do seu sexo, os homens atribuíram gênero ao mundo visível que os rodeava.

“Na certeza visual de que seus corpos portavam uma diferenciação significativa, reguladora de uma precária organização social, foi que primitivamente a espécie humana ordenou, classificou, nomeou o caos aparente do universo” (OLIVEIRA N.)

Neusa Oliveira conclui que “ao idealizar a imagem feminina e masculina, a cultura acrescenta a seus corpos signos, símbolos, sinais, que tornam extensão anatômica e são somados ao sexo do individuo a partir do seu nascimento. A adição simbólica garante um consenso social sobre a imagem ideal da ‘performance’ corporal masculina e feminina”. Marta Lamas acrescenta que “esta simbolização cultural da diferença anatômica toma forma no conjunto de práticas, idéias, discursos, e representações sociais que dão atribuições à conduta objetiva e subjetiva das pessoas em função do seu sexo”.

A oposição binária homem/mulher é a chave na trama dos processos de significação. “A diferença sexual nos estrutura psiquicamente e a simbolização cultural da mesma diferença, o gênero, não só marca os sexos, mas também marca a percepção de todo os demais: social, o político, o religioso, o cotidiano” (LAMAS M.).

Joan Scott aponta a necessidade de “substituir a noção de que o poder social é unificado, coerente e centralizado por alguma coisa que esteja próxima do conceito foucaultiano de poder, entendido como constelações dispersas de relações desiguais constituídas pelos discursos nos ‘campos de força”.

Sobre Pedro Dell'Orto

Pedro Dell'Orto é estudante de Produção em Comunicação e Cultura da Universidade Federal da Bahia. Com parte de sua formação na Argentina, desenvolve seus estudos na área de produção audiovisual através de suportes digitais e possui experiência tanto em produção televisiva (Soterópolis - TVE Bahia) como em curta-metragem de ficção cinematográfica (2011: Solene Simpatia; 2010: Rita Lina) Ver todos os artigos de Pedro Dell'Orto

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